Quarta-feira, 19 de Março de 2008 | Atualizado em 25.07.08 às 3h36

Helloween: Gambling with the Devil


Tenho pena do Andi Deris. Juro. O camarada está à frente dos microfones do Helloween há quase quinze anos e, até hoje, as pessoas se referem a ele como “o novo vocalista da banda”, tamanha foi a marca deixada por Michael Kiske em discos lendários como foram os “Keepers”, verdadeiros definidores do que seria toda [...]

Thiago "El Cid" Cardim


Tenho pena do Andi Deris. Juro. O camarada está à frente dos microfones do Helloween há quase quinze anos e, até hoje, as pessoas se referem a ele como “o novo vocalista da banda”, tamanha foi a marca deixada por Michael Kiske em discos lendários como foram os “Keepers”, verdadeiros definidores do que seria toda uma escola de heavy metal europeu. Mas não vamos nos enganar: não é apenas uma parcela insatisfeita de fãs que traça insistentes paralelos de Deris com Kiske, mas sim a própria banda — ou, no caso, um certo Michael Weikath, guitarrista e remanescente da formação original ao lado do baixista Markus Grosskopf.

Em sua maioria, as composições às quais Deris vinha sendo submetido nesta última década não privilegiam o seu estilo de voz, bem diferente dos límpidos agudos de Kiske: Deris canta mais agressivamente, mais rasgado, menos heavy metal melódico e bem mais hard rock, daquele hardão mais clássico tipo Deep Purple. Weikath parece querer que Deris cante músicas feitas para o Kiske. E o resultado acaba sendo catastrófico, com uma interpretação deslocada e sem personalidade. No fundo, chego a concordar com o colega Corrales, do Delfos, quando ele diz que o Deris é o cara certo na banda errada: tem um baita vozeirão, mas deram um monte de músicas equivocadas para que ele colocasse a voz.

“Master of Rings” (1994) e “The Time of The Oath” (1996) são bons discos, não nego. Gosto especialmente do segundo, power metal de altissima qualidade. E Deris entrega performances inspiradas. Mas me incomoda sentir o esforço que ele tem que fazer para se enquadrar num estilo que não é o seu. Isso tira boa parte da personalidade do grupo, faz com que fique no ar uma incômoda sensação de que algo ali é forçado, anti-natural, talvez tentando emular o que outrora foram os “Keepers”. Seria a mesma coisa que presenciar o Iron Maiden tentando, em vão, gravar um novo “The Number of The Beast” ou “Powerslave”. É hora de seguir em frente. Não quero dizer que seja necessário revolucionar, transformar-se em algo radicalmente diferente, virar uma banda punk ou um combo de música latina. Tampouco quero que eles se tornem o Blind Guardian ou o Edguy. Mas dá para manter suas raízes sem precisar soar um cover de si mesmo.

De seus últimos trabalhos, me agrada o marcante passo dado em “Rabbit Don’t Come Easy” (2003), que é notadamente um Helloween em busca de uma expressão mais própria, rumo ao futuro e desapegando-se de um passado que gerou tantas e tantas bandas similares e que, hoje em dia, parecem soar mais relevantes do que o próprio Helloween. “Dark Ride” (2000) é uma tentativa embaraçosa de fazê-los parecer mais sombrios e macabros, com resultado risível. E “Keeper of The Seven Keys: The Legacy” (2005) é uma pomposa e pretensiosa tentativa progressiva de, novamente, cutucar o passado. Não há necessidade de uma bobagem destas, como bem prova o interessante Gambling With The Devil, lançamento do Helloween que poderia muito bem nortear os futuros rumos criativos do grupo. E me perdoem se só cheguei ao assunto de fato muitos parágrafos depois, mas a introdução se fazia necessária para explicar, por A + B, as minhas razões para enxergar este recente disco com tão bons olhos — concordem você ou não. O fórum está aí para isso! :-)

Depois da curtinha e divertida introdução narrada por Biff Byford, vocalista do Saxon (mas, afinal, por que diabos não convidaram o cara para cantar de fato em nenhuma música?), vem “Kill It”. Não, não, não. Uma canção desnecessária, na qual Deris força um agudo de maneira que chega a ser cômica, lembrando os melhores momentos paródia-metálica do Detonator. Tentando parecer mais pesados do que de costume, meio thrash até, eles soam perdidos, sem eira e nem beira numa faixa que caberia muito melhor nas mãos dos conterrâneos do Primal Fear. Se a idéia era essa, a resposta do que funcionaria está algumas músicas à frente, em “I.M.E.”, metal de ótimo gosto, quase tradicional mas com pitadas daquele tipo de hardão setentista no qual nosso simpático cantor fica mais à vontade. Bingo.

“Paint A New World”, “Final Fortune” e “Fallen to Pieces” são outros exemplos de canções com excelente potencial, em parte desperdiçado por tentar adequar Deris ao jeito Kiske de ser — cuja voz mais limpa e de maior alcance agudo daria uma outra cara no frigir dos ovos. Não chegam a ser faixas que podem ser consideradas ruins, mas é nítida a necessidade, em determinados momentos, de muitas camadas de vozes ao lado da do frontman para disfarçar suas limitações pós-Keepers. Melhor ficar, então, com “The Saints”, “Dreambounds” ou “The Bells Of The 7 Hells”. Esta trinca forma o que costumo chamar de “power metal germânico genérico”. Mas estão com tudo na medida certa, sem sobras, evitando maiores floreios progressivos e indo direto ao ponto, com força e intensidade para conquistar os bangers.

O segredo deste “Gambling With The Devil”, no entanto, está em dois momentos-chave. O primeiro deles é a climática power ballad “As Long As I Fall” — que, para alguns, pode soar um tanto modernosa por fazer uso de determinadas nuances eletrônicas. Não comece a torcer as orelhas, porque é apenas uma salpicada mais do que adequada, engrossando o caldo quase hard rock que, aliado a um pianinho espertíssimo, prepara o terreno para um refrão pra lá de cativante. O mesmo tipo de refrão delicioso e provocante pode ser ouvido em “Can Do It”. Você pode achar a letra até meio bobinha, mas é um tipo de canção positiva e alto-astral, happy happy helloween-style, que pouquíssimo se ouve nos dias de hoje em bolachas de heavy metal: “You can do it / There’s nothing to it / If the whole damn world abandoned you / You´re the only one worth listening to”. E vem o trechinho que promete incendiar os shows: “So, come one come on come on…come on come on…get on!“. Ouvi a primeira vez e…bingo! Saí cantarolando imediatamente.

Apesar de ser fã declarado do Kiske, dentro ou fora do Helloween, tenho uma boa dose de simpatia pelo Deris desde o material que pude ouvir do Pink Cream 69. Nunca me pareceu justo vê-lo na posição de “substituto de luxo”. Com este “Gambling With The Devil”, a situação parece começar a se corrigir. Um brinde a isso – de preferência, com a melhor cerveja alemã possível.

Gambling with the Devil
(Helloween, 2007)

Line-Up
Andi Deris - Vocal
Michael Weikath - Guitarra
Markus Grosskopf - Baixo
Dani Löble – Bateria
Sascha Gerstner - Teclado

Tracklist
1. Crack The Riddle (Intro)
2. Kill It
3. The Saints
4. As Long As I Fall
5. Paint A New World
6. Final Fortune
7. The Bells Of The 7 Hells
8. Fallen To Pieces
9. I.M.E.
10. Can Do It
11. Dreambound
12. Heaven Tells No Lies

Nota do JUDÃO

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Comentários
Já são 7 sobre esse post -- até agora

  RockStar

Definitivamente… O Andi Deris sempre foi muito mal-aproveitado no Helloween, assim como Blaze Bayley no Maiden (que teve ótimos momentos no X-Factor, mas péssimos no Virtual XI)… Gambling with the Devil é um álbum muito bom, se não existir a eterna comparação com o passado… e se Kiske fez grandes clássicos nos microfones do Helloween, não dá pra esquecer Pink Bubbles Go Ape e Chameleon, ambos fiascos de crítica e, em grande parte, de público também.

19 de Março de 2008 às 22h55
  andré

e como se não bastasse esse album ser muito bom os caras ainda vem fazer show aqui na terrinha (fortaleza-ce)!

19 de Março de 2008 às 23h55
  C.

De metal, achei esse uns dos melhores álbuns do ano passado.

Pena que POA fica tá fora da turne…. acho eu.

20 de Março de 2008 às 8h20
  Rodz

Na boa, tô cansado de ver as viúvas do Kiske falando mal do Deris até hoje (não que seja o caso do autor do post). A mesma coisa acontece com as viúvas do André Matos no Angra.

Pô galera, é assim mesmo. As coisas mudam, alguns estilos mudam, mas a essência é a mesma.

Gostava do trabalho do Kiske, mas adoro o do Deris a ponto de preferir a sua época. Hoje, depois de tantos albuns e show à frente da banda, Helloween pra mim, é com o Deris.

E não acho que ele soe forçado ou sem personalidade. Muito pelo contrário. Ele canta do jeito dele, sem tentar ficar imitando o Kiske. Basta ver a performance dele ao vivo em músicas que eram cantadas pelo Kiske. Ele canta do jeito dele.

20 de Março de 2008 às 10h40
  Viúva do Kiske

Cara Michael Kiske foi um cara filho da putha muito foda … o cara vem com 17 anos e FAZ 2 dos melhores albuns de Heavy METAL da historia (para mim os MELHORES)… e me deixa aqui no SONHO de uma turne DE RETORNO ao HELLLOWEEN ou ainda um GAMMA RAY com ele nos vocais. … SOU “VIÚVA DO KISKE MESMO”

20 de Março de 2008 às 18h51
  Raphael Antunes

eu gosto do Deris, mas tb sinto como se ele estivesse sendo forçado a cantar coisas q n são pra voz dele…
adoro o Pink Cream 69 com ele e muitas coisas do Helloween, como o próprio Dark Ride e o Rabbits, mas o keeper legacy eu achei uma safadeza d tão ruim, n gostei do gambling, mas mesmo assim o considero melhor q o legacy.

e apesar d gostar mais da fase kiske, acho um saco essas palhaçadas e discussões sobre vocalistas…
o Deris tá aí, gostem ou não, n é?

20 de Março de 2008 às 23h18
  Birimbeto

Concordo com o Rodz e com o Cidão. Se as pessoas não precisassem de novidades, pra quê filmes, músicas, comidas, etc. e tal novos? Bastaria rever e rever até morrer. No caso do Angra, ainda mais. Conheço a banda desde os tempos de Angel’s Cry, e gosto do Dedé, mas sou mais o Falaschi, principalmente por ser mais bem-humorado (o Dedé é muito poser…).

21 de Março de 2008 às 4h03
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