Dia destes, reli a crítica de um colega jornalista para um determinado disco de uma determinada banda — não vou dar nomes aos bois para evitar criar constrangimento. O fato é que a coisa descambava para algo meio assim, com direito a uma adaptação minha: ”Eles fazem um indie rock classudo quase jazz e repleto de inspirações de música eletrônica, soul e hip hop”. Hein? Mas que confusão é esta, afinal de contas? Uma verdadeira salada sonora dentro de uma frase que não me explica patavinas do que diabos eu deveria minimamente imaginar. Você, pelo menos, conseguiu sequer imaginar como diabos é o som deste grupo ao ler uma descrição deste tipo? Um indie rock meio jazz e hip hop? Que bicho é este? E me peguei pensando nesta necessidade quase primitiva de ter que fazer uso de rótulos e mais rótulos — e de criar novos e mais novos a cada dia. Para poder ouvir um disco ou uma canção, você precisa ter a especificação técnica do gênero ao qual eles pertencem?

Tomemos o heavy metal como exemplo, um gênero altamente frutífero na geração espontânea de nomes e mais nomes para as suas supostas subdivisões. Os fãs e a imprensa especializada adoram ver surgirem expressões como thrash metal, death metal, doom metal, black metal, power metal, viking metal, folk metal, funk metal, gore metal, gothic metal, syhmphonic metal, metalcore, metal industrial, new metal e afins, sendo que a maior parte das pessoas não sabe dizer de bate-pronto as sutis diferenças entre elas — e alguns muito menos sabem definir claramente o que seria o heavy metal, em sua base e origem. Pense rápido e responda: que tipo de som o AC/DC faz: heavy metal ou hard rock? Se você disser que eles fazem hard rock, seria este o mesmo tipo de sonoridade do Aerosmith — também chamado de hard rock pelos grandes magazines? Do Audioslave? Ou mesmo de bandas européias como o Pink Cream 69? Não é tão simples quanto parece, né? Ainda mais num mundo no qual todo mundo recicla e absorve as influências mais diversas para criar a sua própria expressão artística.

A gente adora criar este tipo de nomenclatura, é inerente ao ser humano. “Você viu o filme X? É tipo o ‘Duro de Matar’, sabe?”. É uma forma de fazer comparações, de traçar paralelos, de criar nichos, de agrupar dentro de um mesmo universo de conhecimento para aumentar a chance de acertos na descrição. E eu mesmo não posso me excluir deste tipo de comportamento — já que, por exemplo, não resisti e tratei de taxar um disco dos estadunidenses do Kamelot como “Andrew Lloyd Webber Metal” em uma crítica para o Whiplash. É normal (não que eu seja normal, mas você entendeu).

Mas temos que perceber, músicos, jornalistas, fãs e demais envolvidos no processo, que por mais fáceis e divertidos que sejam os rótulos, eles não podem ser uma saída limitadora — se eu digo que gosto de metal, só posso gostar de metal? Estou automaticamente impedido de ouvir qualquer coisa que não seja enquadrada como metal? E o contrário também é válido: se eu botei na minha cabeça que NÃO gosto de metal, vou ser naturalmente avesso a tudo que seja carimbado como metal? E estou proibido de ouvir outros bons artistas, de ampliar meus horizontes, de conhecer novas sonoridades? Peralá, Juvenal.

Mais um exemplo: Los Hermanos é rock ou MPB? Ou os dois? Ou nenhum dos dois? Ou uma mistura que a gente pode chamar de RPB (não confundir com o RBD)? Sei lá, meu. E isso lá importa? Eu não gosto de rótulos. Eu gosto é de música. Não importa se é verde, azul ou lilás. Se eu gosto de Los Hermanos, é porque eles são os Los Hermanos. Se eu não gosto, tem que ser pelo mesmo motivo. E não porque é rock, MPB, música eletrônica, samba ou quá-quá-quá.

Encerrando a conversa (por enquanto, já que ela sempre continua nos comentários), nada melhor do que recorrer a um esclarecedor papo que tive com Max de Castro, na época do finado portal AOL, a respeito do rótulo de “samba-rock” freqüentemente estampado pela imprensa em qualquer um dos seus trabalhos. “Rótulo é invenção dos americanos, criar estas nomenclaturas para separar os discos nas estantes das lojas de discos e poder segmentar as rádios. Na minha casa, eu organizo meus discos por ordem alfabética. Não tem esta coisa de ‘agora vou ouvir um disco de R&B e depois um heavy metal’. Pra mim, só existem dois tipos de música: a ruim e a boa”.

Sacou?

Musa musical

Não estamos aqui para discutir a qualidade sonora do trabalho da moça, mas esta aqui é Lauren Harris — a filha de Steve Harris, baixista (e dono) do Iron Maiden. Que acham os rapazes judônicos?

Playlist da Semana
    ”Don’t Know Why” (Norah Jones)
    “Locomotion” (Grand Funk Railroad)
    ”The Evil That Men Do” (Iron Maiden)
    ”Turbolover” (Judas Priest)
    ”Total Eclipse of The Heart” (Bonnie Tyler)
    ”Mr.Brightside” (The Killers)
    ”Roxanne” (The Police)
    ”Hazel Eyes” (The Darkness)
    ”Put Your Records On” (Corinne Bailey Rae)
    “Mama Kin” (Aerosmith)

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