No final da década de 1990, a Marvel sentia que precisava, de alguma forma, reformular o Homem-Aranha, uma das suas maiores franquias (ao lado, na época, dos X-Men). Nos anos anteriores a editora havia tentando, sem sucesso, retomar uma maior identificação entre o personagem e os leitores com a famosa Saga do Clone. A intenção era, no final das contas, ter um Cabeça-de-Teia renovado, loiro tingido e solteiro. Não deu certo e a Casa das Ideias se viu obrigada a desfazer a troca.

Em seguida, a editora resolveu mudar o foco das mudanças, chamando o roteirista John Byrne (responsável por renovar o Superman na década de 80) para criar uma nova origem para o herói, além de zerar a numeração de todos os gibis do personagem. Mais uma vez o resultado foi controverso e não trouxe o impacto esperado nas vendas.

Como resultado disso e de uma série de atitudes erradas, a Marvel Comics quase faliu e foi obrigada a pedir concordata. Sem escolha, a empresa vendeu os direitos de alguns personagens, como o próprio Homem-Aranha e os X-Men, para grandes estúdios de Hollywood. O dinheiro foi o suficiente para salvar a empresa, mas era preciso um novo caminho para não ir mais uma vez para o fundo do poço.

Em 2000 o desenhista Joe Quesada foi promovido para o cargo de editor-chefe com a missão de construir o caminho para o futuro. Uma das primeiras sacadas da gestão de Quesada é que não adiantava modificar drasticamente os títulos em linha, com cronologias de quase quatro décadas, para atrair novos leitores. Isso resultaria apenas em antigos leitores enraivecidos, que deixariam de ler aquelas revistas, além de fazer uma publicidade negativa que afastaria os novatos. Foi assim que surgiu a ideia do Universo Ultimate Marvel. Uma nova realidade, construída do zero, com novas origens para os heróis e voltada aos novos leitores que não queriam saber das grandes cronologias. Era também um campo para arriscar mais.

O Homem-Aranha Ultimate

Para criar uma nova versão do Homem-Aranha, a Casa das Ideias escolheu o roteirista Brian Michael Bendis e o desenhista Mark Bagley. Para eles, a editora deu uma página em branco e apenas uma condição: que criassem um título de sucesso.

Assim, Bendis botou sua cabeça para funcionar com base nos trabalhos originais de Stan Lee e Steve Ditko, mas com novas ideias, influências e histórias. Se em Amazing Fantasy #15 a origem do Escalador de Paredes é contada em 11 páginas, Bendis gastou sete edições para estabelecer o personagem. A intenção era que o leitor realmente se apaixonasse por aquele personagem, construindo ao lado dele um universo.

Ultimate Peter Parker por Mark Bagley

Nestas sete edições, Utimate Spider-Man estabelece que Peter Parker é um estudante do segundo grau de apenas 15 anos, assim como era, no começo, sua contraparte original. Ele vive com seus tios Ben e May Parker após seus pais morreram em um acidente aéreo (que não foi acidente, mas Peter não sabe ainda disso). Certo dia, o garoto vai até a Osborn Industries em um passeio da escola para ser acidentalmente picado por uma aranha geneticamente modificada pela droga experimental OZ.

Como resultado da picada, Peter começa a apresentar estranhos poderes e bate em Flash Thompson, o valentão da escola. A porrada é tão grande que Flash precisa de cuidados médicos, que acabam pagos pelos Parker. Preocupado pela despesa que causou, Peter resolve entrar para o mundo da Luta Livre e, com um uniforme fornecido pelos promotores, luta e ganha algumas. No entanto, tudo dá errado quando o garoto é acusado de estar roubando o clube e é demitido. Triste, Peter vai até um mercado – onde dá de cara com um ladrão que estava assaltando o local. Ele não faz nada.

Ao chegar em casa, Peter é confrontado pelos tios. Eles estão bravos por conta das notas baixas na escola, resultado do empenho na Luta Livre, algo que eles, claro, não sabem. Transtornado, o garoto foge. No dia seguinte, Ben encontra o sobrinho e faz o discurso de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Peter não dá ouvidos e foge mais uma vez. Arrependido, ele volta. Era apenas para descobrir que o tio Ben havia morrido baleado por um assaltante.

Sem pensar, Peter Parker veste o uniforme do Homem-Aranha e encontra o ladrão – descobrindo que ele era o mesmo cara que deixou fugir no dia anterior. Assim surgia o novo mito.

Universo coeso – ou quase

Peter revela para a MJ que é o Homem-Aranha

A partir daí, Bendis estabeleceu o Homem-Aranha como realmente um garoto, que quase não cresce nos anos seguintes, e é amigo de escola de personagens como Harry Osborn e Mary Jane (que, na cronologia normal, só encontrou na faculdade). Na 13ª edição, inclusive, Peter contou sua identidade secreta para a MJ.

Outro ponto importante é que, já sabendo quais vilões e personagens poderiam ser integrados ao Ultiverso tendo como base o Universo Marvel 616 (o “padrão”), Bendis ligou muito mais as pontas entre o herói e os vilões. O Duende Verde, por exemplo, é cria da mesma fórmula OZ que deu poderes aos Peter Parker. Já no caso de Richard Parker, ele era um cientista ao invés de espião, tendo trabalhado na cura para o câncer. A morte de Richard e de Mary Parker acabou sendo provocada por Eddie Brock Sr. e seu traje Venom – criado justamente pelos pais de Eddie Brock e Peter Parker.

Outra sacada desta nova versão foi manter sempre um ar de inexperiência para o personagem, que sempre rendeu boas histórias do Aranha, sendo justamente ensinado pela S.H.I.E.L.D. e por heróis como o Homem de Ferro. Além disso, a série manteve o clima colegial, os problemas financeiros dos Parker e tudo mais. Peter, para você ter uma ideia, trabalhou até em uma lanchonete ao estilo McDonald’s. Claro, ele também trabalhou no Clarim Diário – inicialmente por conta das suas fotos, mas depois foi realmente para trabalhar no site do jornal, quando resolveu um problema no script da página.

Uma grande mudança aconteceu também no relacionamento do herói com Gwen Stacy e Mary Jane. A ruiva acabou por ser o primeiro amor de Peter, que teve uma relação, inicialmente, de amizade com a loira – que também tinha uma personalidade diferente da original. Após a morte do pai de Gwen, o capitão George Stacy, ela chegou a morar com os Parker, inclusive. Eventualmente Gwen e Peter namoraram, mas não foi por muito tempo.

Ainda em relação à Gwen Stacy, a fase mais controvertida de Ultimate Spider-Man foi quando a loira foi morta pelo vilão Carnificina. Depois, na versão Ultimate da Saga do Clone, a personagem apareceu, sendo descoberto em seguida que ela era uma clone e, para piorar, a nova versão do próprio Carnificina. No final, o simbionte foi absorvido por Venom e, de acordo com uma análise de Tony Stark, aquela Gwen poderia ser considerada a original, que voltou à vida, e não uma clone.

A morte de Gwen Stacy

Bendis/Bagley

Outro destaque da versão Ultimate foi a parceria entre Brian Bendis e Mark Bagley. Juntos, eles fizeram nada menos que 111 edições de Ultimate Spider-Man, um recorde aracnídeo muito superior, em número de edições, a parceria Stan Lee/John Romita.

Em Ultimate Spider-Man #111, Bagley deixou a arte nas mãos de Stuart Immonen e foi para a DC. Depois dele, vieram nomes como os de Chris Samnee e Sarah Pichelli na arte, mas Bagley voltaria para última história. E era realmente a última…

A morte de Peter Parker

A partir daqui, este artigo traz informações de edições ainda não publicadas no Brasil.

Ultimate Comics Spider-Man #1: um recomeço para o Aranha

Com o tempo e o crescimento do Ultiverso, o risco de uma cronologia muito grande, que afastaria novos leitores, voltou a preocupar a Marvel. Para marcar um novo começo para o Universo Ultimate, a Casa das Ideias empreendeu a saga Ultimatum, que trouxe a morte de vários heróis, criando uma nova base para um recomeço. No caso do Homem-Aranha, as mudanças foram menos bruscas. O título do personagem, agora chamado Ultimate Comics Spider-Man, voltou para a primeira edição e trouxe o Peter Parker após alguns meses de hiato depois dos eventos de Ultimatum. Assim, era criado um ponto de entrada para os novatos.

Só que este não era o recomeço planejado por Brian Michael Bendis. Após reestabelecer a numeração original da edição 150, o roteirista convocou o desenhista Mark Bagley para, entre os números 156 e 160, desenvolver a saga A Morte do Homem-Aranha.

Após ser encontrado vivo e ser preso pela S.H.I.E.L.D., Norman Osborn escapou. Infelizmente, o Aranha estava ocupado com o conflito entre os Vingadores e os Novos Supremos e nada pode fazer, dando tempo para o vilão elaborar seu plano. Eventualmente os planos do Duende Verde levaram a uma grande luta no bairro onde Peter cresceu, buscando vingança não apenas contra o garoto, mas aqueles que ele mais ama. Depois de uma longa luta, MJ vê seu amado muito ferido, rouba uma van e atropela o vilão, o que incapacita o Duende por algum tempo. Peter então a tira do carro, dá um último beijo e a joga longe. Muito cansado, o Aranha junta forças para levantar a van e começa a atingir Norman repetitivamente, até que, finalmente, o carro explode.

O Duende Verde estava acabado. Já Peter, a essa altura sem máscara e fatalmente ferido, caia nos pés do amigo Johnny Storm. Desesperadas, Gwen e MJ pediam por uma ambulância, enquanto a tia May chorava. “Está tudo bem… Eu consegui. Você não vê… Está tudo bem. Eu consegui. Eu não consegui salvá-lo. Tio Ben. Eu não consegui salvá-lo… Não importa o que eu faça. Mas eu salvei você. Eu consegui isso. Eu consegui”, disse Peter para a tia. Com um sorriso, ele morre.

Assim, em frente das câmeras de todo o mundo, Peter Parker, o Homem-Aranha, um garoto, morria.

Peter e o tio Ben: "Você mandou bem, garoto"

Surge Miles Morales!

A segunda parte do plano de Bendis era ainda mais corajosa. De certa forma, fazer como as HQs fazem hoje, com personagens que não envelhecem ou são quase imortais (isso quando não morrem e renascem), pode ser um tiro no pé. Afinal, além de criar cronologias enormes, faz com que os heróis percam a semelhança com a realidade. No entanto, o conceito do personagem pode ser eterno, com um manto que passa de uma pessoa para outra – algo como é a ideia original do Fantasma. Com esse direcionamento, começa uma nova fase do Aranha Ultimate, uma fase na qual o manto é passado para um garoto chamado Miles Morales.

Miles tem apenas 13 anos e é meio negro, meio hispânico, trazendo uma identificação com um vasto público. Tudo começa quando o tio de Miles, o vilão conhecido como Gatuno, invade a Osborn para roubar e leva para casa uma aranha injetada por uma fórmula OZ criada a partir do sangue de Peter Parker. Ao visitar o tio, Miles é picado pela aranha que fugiu das coisas dele e começa a desenvolver os famosos poderes de aranha. Ou quase, já que ele ganha novas capacidades, como uma “picada venenosa” e invisibilidade. Só não há, ainda, as famosas teias de aranha, pois Miles não tem a capacidade necessária para criar os disparadores de teia.

Gwen dá a Miles a mais importante lição: "grandes poderes trazem grandes responsabilidades"

Por um lado, Bendis manteve o mesmo ar de inocência e inexperiência do Peter Parker Ultimate, mas adicionou elementos novos, como o fato do tio inspirador não ser uma boa pessoa, mas sim um vilão. A supervisão por parte dos grandes heróis também existe, com um apoio de Nick Fury e da S.H.I.E.L.D., que, inclusive, forneceram o novo uniforme negro e vermelho para o garoto.

A principal dificuldade de Miles é, no final das contas, a própria morte de Peter Parker. Enquanto ele tenta usar as aventuras do antecessor como base para experiência, o público em geral acredita que tudo não passa de algo de mau gosto, já que ele deveria ter seu próprio nome e visual, afinal “o Homem-Aranha era Peter Parker”.

Mensalmente o JUDÃO traz as resenhas do novo volume de Ultimate Comics Spider-Man, estrelado pelo Miles. Para acompanhá-las, click aqui.

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