Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

[Especial CAVALEIRO DAS TREVAS] O nascimento do Homem-Morcego


Como tudo começou…

Renan Martins Frade


Os Estados Unidos do final da década de 1930 eram um país cheio de novas idéias e novos rumos. Finalmente o país estava deixando de sentir os pesados efeitos da Crise de 1929 e, no horizonte, uma guerra se aproximava, algo que transformaria os EUA na superpotência que conhecemos hoje. A cultura, é claro, também experimentava o seu crescimento. Os chamados pocket books, livros de bolso com histórias de terror, suspense, ficção científica e afins, alcançavam grandes vendagens.

Nesse contexto, o primo mais jovem do pocket book também crescia a olhos vistos: o gibi. O gibi, no formato em que conhecemos hoje, surgiu nos EUA em 1934 e, em 1938, deu origem ao primeiro super-herói da história: Superman. A junção de um formato novo para se contar histórias a um personagem sem igual no imaginário humano, com poderes bem além da imaginação dos leitores, provou ser a combinação definitiva que faltava para uma verdadeira explosão cultural.

Com o sucesso do Superman, a DC Comics passou a procurar novos super-heróis. Foi então que o desenhista Bob Kane apresentou aos editores o personagem The Bat-Man. Diferentemente do que seria esperando, o personagem não possuía super-poderes, muito menos era alienígena. Na verdade, the Bat-Man tinha mais relação com personagens como o Fantasma (que surgiu em 1939, mas não tinha super-poderes e não era considerado um super-herói), Sombra e Morcego (estes dois vindos dos pocket books). Porém, o visual do personagem era fortemente inspirado no Superman, com vários detalhes vermelhos no uniforme. Para a infelicidade de Kane, este primeiro projeto não foi aprovado pela DC.

Para a sorte do desenhista, um encontro mudou o destino do Homem-Morcego. Em uma festa, Kane conheceu o roteirista Bill Finger, que se interessou pelo personagem e deu várias sugestões, como aproximar mais o uniforme ao do Fantasma e também dar o nome de Bruce Wayne ao alter-ego civil do herói. A dupla então produziu a primeira história do personagem, sendo Finger o roteirista e Kane o desenhista.

Como Bob Kane já tinha um contrato com a Detective Comics Inc., Bill Finger não recebeu nem um crédito nesta primeira história, que foi publicada em Detective Comics #27. Por este “pequeno detalhe”, Bill Finger nunca recebeu o devido crédito pela criação do Batman.


Detective Comics #27

O resto, como se diz, é história. Detective Comics #27, publicada em maio de 1939, foi um verdadeiro sucesso. A mistura de suspense e HQ de super-heróis, com um toque do visual do filme Nosferatu (de 1922), eram justamente o que os leitores da revista estavam procurando.

Porém, o Batman visto em Detective Comics #27 não é exatamente o mesmo que vemos hoje. Diferentemente do habitual, a origem do herói não foi contada. Já o uniforme do personagem era cinza e preto, mas com o cinto amarelo com uma fivela redonda. A luva era curta, na cor azul e sem as famosas “pontas”. A máscara também era levemente diferente do que foi introduzido nas histórias seguintes.


Batman e seu primeiro uniforme

Em pouco tempo, as características que vemos hoje foram aparecendo. Em Detective Comics #33, de novembro de 1939, os leitores finalmente conheceram a origem do Batman. E já estava tudo lá: a morte do casal Wayne em frente ao jovem Bruce, o aprendizado, o treinamento e até o famoso morcego entrando pela janela, que inspirou o personagem.

No entanto, o maior problema do Batman era o excesso de balões de pensamento. Por ser um detetive, o personagem precisava refletir sobre o que estava acontecendo na história, mas não havia nenhum outro personagem para manter uma conversa. Para compensar, Finger e Kane introduziram o personagem Robin que, além de conversar com Batman, também teria uma identificação com os leitores, já que o personagem era um pré-adolescente.


Surge Robin, o Menino Prodígio

Seguindo o exemplo do Batman, a origem do Robin, contada em Detective Comics #38 (abril de 40), também é bem parecida com o que é contada hoje em dia. Na HQ, os leitores conheceram o jovem Dick Grayson, que teve os pais mortos pelo mafioso Tony Zucco em um suposto acidente no circo.

Foi em 1940 que o Morcego ganhou o seu próprio gibi, sem nenhum outro personagem para dividir a publicação. O gibi, chamado simplesmente de Batman, trouxe o primeiro super-vilão de peso a enfrentar o personagem: ninguém menos que o Coringa. A história, assinada apenas por Kane, mas escrita com Finger e arte-finalizada por Jerry Robinson, apresentou um Coringa sangrento, que não pensava duas vezes antes de matar suas vítimas. O plano era bem típico do personagem: roubar objetos valiosos, mas sempre com um toque ensandecido.


Primeira aparição do Coringa

Junto a Batman, Robin e Superman, um grande número de personagens de histórias em quadrinhos foram criados. Durante as privações e os medos causados no povo estadunidense pela Segunda Guerra Mundial, as HQs vendiam muito bem. Só que a identificação com os tempos de guerra acabou não sendo positiva para os quadrinhos, que caíram no esquecimento logo após o final da Segunda Guerra. Personagens como Flash, Lanterna Verde e outros tiveram os títulos cancelados.

Enquanto os gibis passavam a abordar temas como terror e suspense, apenas Superman, Mulher-Maravilha e Batman continuavam a ser publicados. Claro que nem tudo continuou como antes. Desde o final da guerra os editores da DC procuraram retratar um personagem mais correto, com uma figura paterna que poderia ser encarada como um “cidadão de respeito”. Era o fim daquele herói obscuro, que buscava causar medo nos oponentes.

Achou ruim? Então é melhor se preparar, pois a situação ficou ainda pior nos anos 50…

Comentários
Já são 6 sobre esse post -- até agora

  The Cassio Bats

Ótimo artigo.

17 de Julho de 2008 às 19h47
  Kurama

Parabens, um artigo a altura do que Batman merece.

17 de Julho de 2008 às 21h17
  Posts que lí e recomendo | Netizen

[...] 9.  [Especial CAVALEIRO DAS TREVAS] O nascimento do Homem-Morcego [...]

17 de Julho de 2008 às 21h45
  Jik

“Desde o final da guerra os editores da DC procuraram retratar um personagem mais correto, com uma figura paterna que poderia ser encarada como um “cidadão de respeitoâ€. Era o fim daquele herói obscuro, que buscava causar medo nos oponentes.”

O Wolverine enquanto X-Men sofre disso também, mil vezes o canadense em suas aventuras solo.

Bom artigo, velho, parabéns.

17 de Julho de 2008 às 22h09
  DiogoNT

A única coisa q eu acho mto escrota é o Finger não receber nenhum crédito pela criação do Batman. Se não fosse por ele o personagem ainda seria aquela “coisa” colorida q o Kane e criu e não teria emplacado nada!

18 de Julho de 2008 às 0h45
  Nando - com pc (Crashado)

podiam tb ter citado de onde “surgiu” a ideia do curinga…

daquele filme “o homem que ri”.. acho q era esse
;^P

18 de Julho de 2008 às 9h36
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