Foi em 2010 que a DC Comics anunciou a criação de um novo universo. A intenção, naqueles tempos, era de apresentar os clássicos heróis da editora para uma nova geração e dentro de um novo universo, sem amarras cronológicas e com um formato de publicação interessante, pulando os gibis mensais e indo direto aos encadernados. Dois anos depois chega ao mercado estadunidense aquele que é apenas o segundo encadernado desta nova Terra Um, Batman: Earth One (DC, 144 páginas, US$ 22,99), um trabalho que tinha tudo para ser bom, mas que se perde na confusão editorial que é a DC atualmente.

Quando foi anunciado, o Universo de Earth One fazia sentido. Era, de certa forma, a criação do Universo Ultimate da DC, com a vantagem das publicações acontecerem em um interessante (e padronizado) esquema de encadernados. No entanto, nesse meio tempo, aconteceu o reboot da cronologia da DC. De certa forma, o Universo DC se tornou um grande Ultiverso, com versões atualizadas dos super-heróis da empresa. Assim, a ideia da Terra Um se viu esvaziada. Se antes a intenção era publicar encadernados da Mulher-Maravilha, Flash e outros, isso se perdeu. Continuou apenas Superman: Earth One, o qual teve o primeiro volume lançado muito antes do reboot e foi um grande sucesso, e este do Batman, o que até faz sentido, afinal o Homem-Morcego é um dos poucos personagens que não teve a origem alterada com o reboot da DC.

Se não bastasse a ideia de um novo universo ter ficado capenga, o próprio encadernado do Batman sofreu com as constantes mudanças editoriais. O roteiro ficou a cargo de Geoff Johns, que foi nominado na mesma época o Chief Creative Officer da DC Entertainment. Com tantas responsabilidades burocráticas, um reboot para tocar e os roteiros dos gibis mensais Justice League, Green Lantern e Aquaman nas mãos, sobrou para o Homem-Morcego. Assim Batman: Earth One, que era previsto para o primeiro semestre de 2011, teve subsecutivos atrasos e só saiu agora, no dia 10 de julho de 2012.

Engraçado que não é a primeira vez que algo assim acontece na DC. É só lembrar-se da recente linha Grandes Astros, que também foi criada para a ser o “Ultimate da DC”. Após inúmeros problemas, o selo acabou restrito também a apenas Batman e Superman, sendo que apenas a publicação do segundo, feita por Grant Morrison e Frank Quitely, teve o final planejado. Grandes Astros Batman e Robin começou com um grande sucesso, mas Jim Lee até hoje está esperando que Frank Miller entregue o roteiro completo da décima edição…

De qualquer forma, você não precisa de um universo cheio de personagens, crossovers e afins para conseguir uma boa história. Você precisa, no final dos constas, apenas de uma boa história. De certa forma, Geoff Johns se empenhou ao máximo para isso para conseguir isto nesta que foi a primeira investido do roteirista em uma publicação do Cavaleiro das Trevas.

Batman, ainda com o primeiro uniforme, pagando pela inexperiência - isso não te lembra Batman Begins?

Talvez até para se associar de forma mais forte ao inconsciente dos novos leitores, Johns buscou referências naquilo que foi feito com o Batman nos cinemas – principalmente dos dois primeiros filmes, de Tim Burton, além de apresentar novas ideias. Bruce, por exemplo, nunca saiu de Gotham City. Ele foi uma criança mimada que, aos oito anos, era o grande herdeiro das maiores famílias da cidade: os Arkham, que construíram tudo, e os Wayne, que financiaram a construção. O pai, Thomas, era candidato à prefeiro e liderava as pesquisas de intenção de voto. No entanto, um dia no cinema, Bruce teve um dos ataques comuns em uma criança mimada e quis ir embora antes do filme terminar, levando os pais a sair do local pelos fundos e… O resto é história.

A partir daí começa a nascer a lenda. Johns constrói este novo Batman não apenas como o produto do ódio contra a violência, mas como o produto do ódio contra aquele que, ele acredita, teria mandado matar Thomas e Martha. O cara que estava em segundo nas pesquisas para prefeito. O cara chamado Oswald Cobblepot. Sim, o Pinguim.

Sendo assim, Bruce Wayne cresceu em Gotham alimentando todo o ódio dentro de si. Ele não foi treinar pelo mundo para se preparar, mas apenas ficou pensando em formas de como conquistar a tão sonhada vingança. Por ser um nome e um rosto conhecidos, surge a ideia de se vestir como morcego – afinal morcegos dão medo. Nele, ao menos.

Dentro desse contexto, Alfred tem um novo papel – pinçado um pouco até da trilogia de Christopher Nolan nos cinemas – se tornando muito mais do que um mordomo. O próprio Batman é mais fraco, inexperiente e dominado pela vingança. Tudo isso traz uma visão diferente para o Homem-Morcego, algo que até faz sentido.

Gotham, claro, continua suja. A polícia, idem. Dentro disso conhecemos o policial James Gordon, que um dia tentou ser correto, mas hoje vira a cara para o outro lado quando vê um crime. O novo companheiro dele é Harvey Bullock, que não é mais aquele gordo alcoólatra de antes, mas sim uma estrela da TV que apresentava um programa sobre a investigação de crimes em Los Angeles. Nada contra as mudanças com Bullock, elas fazem sentido dentro da história, movimentam os personagens e podem, claro, levar o policial a um caminho interessante em futuros volumes.

Gordon e o Batman já com o segundo uniforme

No entanto, a mudança mais controvertida é ter colocado Bruce como herdeiro de um Arkham e de um Wayne. Por um lado é uma jogada interessante, faz do herói o ~dono e responsável por tudo aquilo, ampliando ideia dele ser o protetor de Gotham City. Por outro, não faz muito sentido a partir dos elementos colocados na própria HQ. Em um momento, na festa de 300 anos da cidade organizada por Cobblepot – em mais uma referência aos filmes, no caso a festa de 200 anos em Batman: O Retorno – vemos que desde a fundação da cidade as duas famílias trabalham juntas. É de se imaginar que, a essa altura, depois de três séculos, tanto trabalho colaborativo tivesse transformado as duas famílias em uma só há muito tempo. Afinal, sabe como é, o herdeiro de uma vai conhecendo o da outra… Demoraria 300 anos para acontecer finalmente um casamento entre elas? Ou será que Thomas e Martha eram primos? Se for a segunda opção, ela soa estranha – e não há elementos dessa explicação na graphic novel.

Há ainda outros elementos que não fazem sentido dentro da passagem de tempo, como o fato de Oswald Cobblepot ser o prefeito há, pelo menos, uns 12 ou 15 anos, além de um dos envolvidos na morte dos Wayne carregar no bolso por esse mesmo tempo um isqueiro do falecido político. Se o objeto fosse bonito, mas era um isqueiro com a inscrição “Filho número 1”…

Apesar desses problemas, a história até que evolui bem até certo ponto – só que ela se perde no final e deixa um certo receio pela deixa que coloca. São mais dois elementos dos filmes dos anos 90, mas não daqueles do Tim Burton…

Se o roteiro tem falhas, o mesmo não se pode dizer da arte. Gary Frank, com quem Johns já havia trabalhado na origem pré-Os Novos 52 do Superman, faz um grande trabalho. O traço é incrível, as expressões bem trabalhadas e as cenas muito bem compostas. Porém, principal mérito não é esse. Como ressalta o roteirista e escritor Brad Meltzer na frase publicada na quarta capa, essa é a primeira vez em muito tempo que podemos ver, nas HQs, os olhos do Batman sem qualquer lente. Eles estão lá, expressivos, dando um efeito fantástico para os painéis.

No final, dá pra dizer que esta nova origem do Batman talvez não funcionasse dentro do Universo DC, caso a editora quisesse incorporá-la com o reboot de Os Novos 52, mas até que funciona para um universo restrito a encadernados, como é o de Earth One – e digo isso apesar dos problemas. O segundo volume já foi confirmado e, agora, é esperar que Geoff Johns perceba onde errou e melhore o nível para a próxima edição.

A única coisa que eu não reclamaria mesmo é se substituíssem o visual pós-reboot criado pelo Jim Lee por esse feito pelo Gary Frank…

Editorialmente, a DC fez um grande trabalho mais uma vez. A capa mantém os elementos do encadernado do Homem de Aço, com elementos em alto relevo e acabamento em verniz em alguns pontos. Ficaram faltando alguns extras e sketches como aqueles que vieram em Superman: Earth One.

Ainda não há uma previsão de lançamento de Batman: Earth One pela Panini – assim como não há previsão para Superman: Earth One. De qualquer forma, você pode comprar a versão original, em inglês, clickando aqui.

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