As internets são legais, redes sociais são úteis… Mas grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Por exemplo, aqui, ser Nerd é ser legal, é ser a melhor coisa do mundo, é bonito, popular… É também errado NÃO SER nerd. Ou, pelo menos, não ser como esse pessoal se vê no espelho. As pessoas esquecem que existe um mundo todo ali fora e, como diz o meu amigo Fábio Bracht, que a própria vida é um videogame.

Legal conversar com pessoal online, etcetera? Pô, claro que é! Mas pera lá, gente. PERA LÁ.

Semana passada rolou lá em Los Angeles a E3. Foi TÃO legal que já parece que faz um mês que aconteceu… Mas divago. Eu comentei aqui sobre as apresentações das “first parties” e, como um fã de videogames, mas não tão gamer, elegi a apresentação da Ubisoft como a melhor: bons jogos, trailers interessantes e a única que não tinha um CEO lendo teleprompter — isso porque Aisha Tyler foi a ~mestre de cerimônias.

Aisha Tyler apresenta ZombieU na conferência da Ubisoft na E3 2012

Pra quem não conhece, ou não se lembra, Aisha é atriz, comediante, e no fim de Friends interpretou a namorada do Joey AND do Ross — o que inclusive ajudou a definir o fim do triângulo entre os dois e Rachel.

Durante a apresentação ela segurou arma, tirou com o maluco insuportável que estava “nos bastidores”, fez umas brincadeiras e se mostrou bem empolgada com alguns dos vídeos mostrados. Podia ser só ela fazendo o trabalho dela — o que já seria INFINITAMENTE MELHOR que a maldição do Regis Fills-Aime, por exemplo.

Mas não era. Por acaso, se tratava de uma mulher LINDA, bem sucedida, famosa, que não faz cosplay, que não usa camisetas engraçadas, que não acha que existe uma moda nerd, que não usa aqueles óculos gigantes, que não tem um site com alguma coisa relacionada a menina e algum sinônimo e/ou referência nerd ou geek, mas que gosta de videogames, que se diverte com isso e que é uma pessoa como eu e como você.

Só que as pessoas não sabiam disso. Sabiam apenas o que eles viam ali: uma “outsider”. Sabe quando representam os populares lindos e fortes e atletas todos juntos no colégio e o nerdão lá sozinho?! Inverte os papeis e coloque a Aisha Tyler sozinha no canto. Pronto. Os “nerds” estão fazendo com o resto do mundo o que o resto do mundo fez com eles.

Na internet, pelo menos. Mas estão.

O Kotaku ainda publicou alguns comentários feitos em fóruns, twitters e YouTube sobre ela e, entre “simples” críticas de quem não gostou do que viu, ainda rolaram os óbvios racismo, sexismo e antisemitismo (“Isso é o que acontece quando se deixa judeus e liberais infectar sua indústria — injetar diversidade e progresso. Não deixe-os matar nossos videogames”).

Ela, que por incrível que pareça também acessa as internets, vê vídeo engraçado no YouTube e tem um Facebook, não ficou alheia à tudo o que disseram sobre ela e respondeu, ontem, numa nota no seu FB — na página pessoal, não é nem fanpage! — que eu traduzo e publico na íntegra abaixo, mas que você pode ler o original em inglês clickando aqui.

    Queridos gamers:

    Eu jogo.

    Jogo desde que sou criança.
    Desde que eu implorei pro meu pai me comprar um minigame do Donkey Kong Jr.
    Desde que eu gastei três semanas de “mesada” jogando Defender na lavanderia.
    Desde que eu era pontada na bola esquerda do meu pai.

    Eu sou gamer desde que eu fiquei amiga de uma menina na quinta série só pra chegar perto do seu Atari.
    Desde que eu perdi o ônibus jogando Galaga depois da escola.
    Desde que eu perdi o início de O Retorno de Jedi jogando Tempest na porta do cinema.

    Vocês pensam que vocês sabem. Vocêsnão sabem.

    Eu sou gamer desde antes de vocês aprenderem a ler.
    Desde que eu me ferrei nas provas depois de ficar acordada a noite toda jogando Evil Tetris.
    Desde que eu me tornei a campeã em Leisure Suit Larry.
    Desde que eu usei duas armas ao mesmo tempo em Time Crisis 3 no Fuddrucker’s.

    Eu dublei não um, mas dois grandes jogos.
    Eu apresentei o tutorial do Halo Reach Beta.
    Eu fui uma panelista super-fã de Gears of War na Comic-Con.
    Eu apresentei a conferência da Ubisoft na E3 2012.
    Eu não fiz nada disso pelo dinheiro.
    Pra maioria desses eu recebi quase nada e, pra alguns, menos que isso.

    Eu fiz isso porque eu amo videogames.
    Porque eu sempre sonhei em estar em um dos videogames que eu amo.
    Quantos jogos vocês já dublaram?
    Em quantas convenções vocês representaram?
    O deathmatch na garagem do seu amigo de Unreal Tournament não conta.

    Eu vou pra E3 todo ano porque eu amo videogames.
    Porque novos títulos ainda me empolgam.
    Porque eu ainda amo ganhar brindes.
    Adoro usar meu orgulho gamer no meu braço.
    As pessoas me perguntam que console eu jogo.
    Filho da puta, TODOS eles.

    Eu fui convidado pra E3 porque gamers verdadeiros sabem que eu sou uma gamer.
    Não faço isso pelo dinheiro.
    Eu tenho bastante dinheiro.
    Não faço isso pela fama.
    Foda-se a fama.
    Eu faço isso porque eu amo videogames.

    Eu não divulgo a minha gamertag porque não quer um monte de noob imbecil fazendo fila pra me assassinar na Xbox Live.
    Eu cago e ando pro que vocês pensam sobre meu gamerscore.
    Eu não jogo pra provar nada.
    Eu não jogo pra ser a melhor.
    Eu jogo porque eu amo jogar.

    Eu jogo.
    Eu sempre joguei, durante toda a minha vida.
    Não tenho vergonha disso.
    Não peço desculpas por isso.
    Essa sou eu.
    Profundamente.
    Eu sou gamer.

    Então todos os haters que dizem que eu não jogo;
    Aos imbecis do GAF,
    Trolls do Gamespot,
    Pra todo racista analfabeto no YouTube,
    Inflamem. Enlouqueçam.
    Postem todos os comentários que seus corações desejarem.
    Eu ainda estarei jogando quando sua mãe te expulsar do porão dela
    e você tiver de vender seu console velho
    e precisar ter um trabalho de verdade.

    Por ora, eu digo pra vocês com todo respeito,
    e eu falo isso do fundo do meu coração,
    GFYS.

Posso até ter algumas coisas contra a maneira com que ela se posicionou em um ou outro momento, já que não acho que o “você já fez o que eu fiz?” signifique algo NESSE CASO, mas tou pensando em usar esse “Eu não jogo pra provar nada. Eu não jogo pra ser a melhor. Eu jogo porque eu amo jogar” como slogan, ou sei lá como se diz, aqui pra essa coluna… Ou mesmo pro canal de Games do JUDÃO.

Porque é assim que eu enxergo essas coisas. É assim que eu acho que TUDO deveria ser. E valeria pra todo o resto: cinema, TV, quadrinhos… Pessoal se leva a sério demais. DEMAIS.

AH, sim. GFYS é um simples e direto VSF. “Go Fuck Yourself”. Ou “vai se foder”. :)

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