Vamos situar vocês, amiguinhos leitores do Judão, na minha atual situação de existência: eu moro em Florianópolis, uma ilha pendurada no sul do Brasil. De lá até São Paulo, a capital nacional da fodacidade eterna, são mais ou menos OITOcentos quilômetros. De carro? Umas 10 horas. Busão? Se for madrugada, 12 horas. Avião? Uma horinha. Foi desse jeito que eu decidi vir aqui pra minha terra natal, pra poder acompanhar a estreia inédita e completamente novidadosa da WWE no Brasil. Seria a primeira vez que a gigantesca empresa de Stanford colocaria os pés neste país, para um evento ao vivo.

Eu comecei a acompanhar a WWE com fervor desde o Wrestlemania do ano passado, mais ou menos. Assisto aos shows semanais sem falta, vejo os pay-per-views, torço, comemoro, reclamo e despiroco. Faço mais ou menos a mesma coisa que todos (ou quase, vai) vocês fazem em relação à esportes, com a diferença de que o que eu assisto é ENTRETENIMENTO, não um grupo de pessoas desejando a destruição do outro. Mas sobre isso eu falo mais tarde.

Para alimentar meu recente vício de wrestling, comecei a acompanhar alguns dos superstars (como são denominados os artistas da WWE) no twitter… até porque, como a empresa não é tonta nem nada, resolveu utilizar as redes sociais também como forma de divulgação. Um belo dia, um deles – Jack Swagger, aka Bruno Chateubriand da luta livre – disse que a WWE viria ao Brasil. AGORA SIM!



Detalhe: O Zack Ryder veio. Ele não.

O povo da internet ficou em polvorosa e não levou muito tempo pra confirmarem a data e os locais de apresentação: dia 24 de maio em SP, no Ginásio do Ibirapuera; dia 25 no Rio de Janeiro, sei lá onde. Era o que eu precisava pra já começar a estruturar o rolê. Era óbvio que eu assistiria. Comprei a passagem de avião logo depois de adquirir os ingressos. Quase dois meses depois, embarquei e tchananã: FINALLY, THE GUTO HAS COM BACK…
HOME.

Aproveitei o tempo extra que eu tinha (eu cheguei na terça e voltaria na quinta, tals) pra rever amigos e curtir tudo de maravilhoso que Sampa tem pra oferecer. Bom, nem tudo… até porque se fosse curtir tudo precisaria de uns 88 anos, né? =D

Enfim. Assim que chego na casa do mano onde estou hospedado, recebo a notícia: o vôo que traria os superstars degringolou loucamente e eles não chegariam em tempo pra fazer o show. A CASA CAIU, TRUTA.

Ninguém tinha certeza de nada. CM Punk twittou uma coisa, Jericho outra… os representantes da TicketsForFun também não tinham nada concreto. E aí? E quem veio de fora? Dá pra desistir e pegar o valor do ingresso? COMO PROCEDER? /o\

Foi nesse momento em que os cariocas que foram zoados infinitamente por terem sua parte do evento cancelada previamente vieram rir da minha face. Eu pedi calma… e aí, veio a confirmação: adiado por um dia, mas o evento IA acontecer. #ChupaCariocada #SPMelhorQueVocêsTudoAí. Perdi a passagem do avião, mas ganhei mais alguns dias em SP. NADA pra reclamar, até aqui. =D

Pule mais algumas horas no tempo e pronto: IT’S TIME TO PLAY THE GAME. Chegamos no Ginásio do Ibirapuera depois de um trânsito básico (NADA maior dos que eu já peguei lá na ~ilha da magia~, é bom constar) e encontrei os primeiros coleguinhas WWEzentos do twitter. Vimos que por lá tinham duas barraquetas vendendo os produtos oficiais da empresa, como camisetas, cinturões, máscaras e CUÉN pra quem chegou tarde, porque tudo que era legal simplesmente DESAPARECEU das banquinhas duas horas antes do evento começar. Consegui pegar uma camiseta do Cena pra um amigo, mas as que EU queria comprar (The Miz, CM Punk e Daniel Bryan) sequer tinham pra vender. Ou, se tinham, as vendedoras não sabiam explicar. Elas definiam “por cor”.

    – Me dá 1 camiseta do Cena?
    – A verde ou a azul?
    – Moça, a azul é do Kofi Kingston!
    – Aff minino me fala logo a cor que cê quer que a fila tá grande!

Por aí. Mais uns bate-papos com os colegas manjadores de wrestling e nos deslocamos para nossos lugares de direito. Eu estava COLADO num dos cantos do ringue, próximo ao corredor de entrada dos lutadores. Pra vocês visualizarem melhor, esse aqui era o meu ponto de vista:

Belezura. Escurecem as luzes, cada um vai pro seu lugar e… tá. ATÉ PARECE que o povo sabe o que é “respeitar o lugar”, né? Quem pagou mais pelas cadeiras da frente só conseguiu ver, nos momentos de entrada e saída dos lutadores, a bunda dos lazarentos que corriam até a grande para cumprimentar os superstars. Tá, eu entendo a empolgação. Fiz o mesmo, depois, para poder vê-los mais de perto. Pelo menos a galera era respeitosa o suficiente pra botar o rólis na cadeira assim que as lutas começavam.

Sobre as lutas: não teve UMA que não foi interessante, seja por qual motivo fosse. A primeira da noite, com Brodus Clay VS. JTG, valeu não só pelo tamanho do Brôu Dusclei no ringue, como também pela simples existência de Naomi e Cameron, as “Funkadactyls” – duas Divas que dançam com o truta e ficam comemorando com ele ali do lado do ringue. Mano… tipo, MANO. Até ver essas duas, eu imaginava que as brasileiras tinham as bundas mais sensacionais do mundo. Até ONTEM.

Viu ali no cantinho? Não? Muito bem, não vou mesmo dividir o que eu vi com vocês <3

Essa luta foi seguida pelo embate entre Alex Riley e David Otunga. Se você é um besta, acharia que torceram pro A-Ry só porque o Otunga é heel (“vilão”), mas nem de longe. O próprio Riley se surpreendeu com a empolgação dos brasileiros em relação a ele:


Na sequência, vieram Curt Hawkins e Michael McGillycutty, também conhecidos por grande parte da galera como “?!?” e “?!?!?”. Boa luta, bons movimentos mas sem a empolgação de ter alguém relevante na tchutcharia. Serviu pra esquentar o povo pra próxima: The Miz vs. Zack Ryder.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

O Miz já tinha dito aqui pra gente que falaria em português. Certo? Então. Ele começou falando em inglês, dizendo que o faria bem devagar pra que todos o entendessem. Depois… ah, meu amigo. Depois ele fez ISSO:


TROUXA, TROUXA, TROUXA! OTÁRIO! EU SOU FODA!

A pancadaria entre ele e o Ryder foi legalzona, até. Bons golpes, finishers aplicados e tudo o mais. Mas o que mais chamou a atenção foi o Miz arrumando confusão com uns trutas da arquibancada. Tudo parte da brincadeira, claro… mas é muito legal como eles fazem parecer verdade. O Miz é REALMENTE awesome. =D

Logo depois rolou a luta das tag-teams, valendo o título. Ela começou com Primo e Epico, a dupla chicana, falando algumas coisas em relação ao Brasil — mais especificamente, que eles, que são de Porto Rico, estavam com nojinho de estarem em um país tão miserável e sujo como o Brasil. Além de fazer parte do show, os caras conseguem ser IRÔNICOS. :D

A luta em si foi ótima, com o R-Truth dando o “spear giratório”, o Kofi marretando seus finishers e, infelizmente, com a dupla campeã perdendo o cinturão… OU NÃO! Rolou todo aquele esqueminha de “meu pé tava na corda, o outro juiz viu, bora mudar essa decisão aê amg” e tals, com a galera gritando “EI, JUIZ, VAI TOMAR CAJU” e similares. No fim das contas, tudo terminou bem e nos divertimos à valer.

Eu, Borbs e Morph #PazNosEstadios

Assim que a luta acabou, rolou uma pausa de quinze minutos. Ainda bem, porque as duas cervejas que eu tomei antes de começar tavam querendo explodir minha bexiga. Problema resolvido, corri até o Borbs na arquibancada pra dar-lhe um beijo e voltei pro meu lugar. O que vem na sequência, mesmo? Ah, é! AS DIVAS.

Bom, no card inicial nós sabíamos que veríamos Kelly Kelly, a barbiezinha gostosa, contra Eve, a explosão de deliciosidade. Mas ela trocou de papel na WWE, e sobrou pra Rosa Mendes tretar com a loirinha. Mas a Rosa se acidentou automobilisticamente no fim de semana passado. E o site da WWE não falou quem viria no lugar. Então, era surpresa.

E QUE SURPRESA. BETH PHOENIX, AMIGOS! A deliciosa amazona da WWE veio até o ringue e fez o que faz melhor: surrou a pequenina buzanfinha da Kelly². Ela também foi uma que discutiu com um cara da galera, sensacional.

Detalhe: ela, ao vivo, não é tão BOMBADA quanto parece… e quem tá falando isso já viu a mina do Belo de perto. Acredite, a brasileira é PIOR. Mas que se dane, a luta das meninas até que foi BEM divertida. Eu vi o Silicone Bomb ao vivo, você não viu. Pereça de inveja.

Oi! :D (Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br)

Próxima!

Dolph Ziggler entra e chama o gigantesco Mason Ryan para ser seu… er… segudo de vida? Foi o que ele disse no microfone, pelo menos. Mas era só um pretexto pra botar o bombadão na brincadeira. Ele ficou ali pelo lado do ringue esperando o adversário entrar. E era… John Cena.

O ginásio quase veio abaixo, numa mistura de vaias e gritinhos histéricos. Um dos maiores pops da noite. Luta bem divertidona entre os dois, com interferências não só do Ryan, mas também do Otunga e do John “Porranagoela” Laurinaitis, que entrou vendendo as lesões do PPV passado AND largou uma muleta lá pro Ziggler dobrar nas costas do João Sina. Boa luta, também.

U CAN'T SEE ME! (Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br)

Pois bem. Pra finalizar a noite, temos CM Punk vs. Chris Jericho. Ótima reação do público, em ambas as entradas. Ambos interagiram com a galera, tudo muito lindo, tudo muito fofo, finishers, elbow drops, tudo meigo. Mas aí, nós fomos obrigados a nos lembrar onde é que estávamos.

Como assim, tio Guto? Por alguns momentos, no dia de ontem, eu consegui me imaginar em um lugar onde as pessoas sabem se divertir. Respeitam os artistas e se respeitam. E o principal: Sabem o que é entretenimento. ENTRETENIMENTO.

Explico: se você ainda não sabia, a letra “E” de WWE significa “Entertainment”. Toda a ideia do evento é, veja só você, ENTRETER o público. Quando assistimos às lutas, não estamos querendo que alguém arranque um pedaço de outra pessoa. Podemos até torcer por isso, mas ficamos REALMENTE preocupados quando isso acontece. Sabe por quê? Porque não queremos que eles se machuquem. Quando isso acontece, eles precisam se afastar para se recuperar. E nós perdemos o entretenimento. Não queremos sangue, gente coberta de hematomas, inchaços, nada disso. Nós queremos que nossos heróis continuem sempre com a gente.

CM Punk comemorando e exaltando a bandeira (Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br)

Falando em heróis: o que seriam deles sem os vilões? Nada. Nem entrarei no mérito de que um herói pode se tornar um vilão – dentro da WWE – de um dia pro outro. E tudo isso faz parte do ENTRETENIMENTO. É o caso do nosso querido Jericho, que ontem foi ameaçado de prisão pela Polícia brasileira por ter denegrido a imagem da bandeira nacional. A pataquada foi tão grande que ele foi obrigado a parar a luta e se desculpar, porque senão iria preso naquele momento. Depois disso, a luta seguiu ~estranha~ até o final. Punk venceu, Jericho saiu fora, Punk fez graça com a bandeira, beijou, agradeceu, andou no meio da galera e pronto. Acabou aí.

Ou não, visto que a polícia AINDA queria fazer pressão pra cima do Jericho. Ficou incomodando o pessoal da organização por um bom tempo, até que resolvessem “deixar passar”. Pois bem… Vamos aos fatos.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

Chris Jericho quebrou alguma lei, oficialmente falando, quando amassou e chutou a bandeira nacional? Sim. De acordo com a Decreto-Lei nº 898, de 29 de Setembro de 1969, art. 44: “Destruir ou ultrajar a bandeira, emblemas ou símbolos nacionais, quando expostos em lugar público”. Pena: detenção, de 2 a 4 anos.

Ah, então tá explicado! Ele quebrou a lei! ELE VOMITOU NA NOSSA CULTURA E ESTUPROU A NOSSA DIGNIDADE ENQUANTO BRASILEIROS NACIONALISTAS, PORTANTO TEM MAIS É QUE SER PRESO MESMO E…

Pode parar com o chilique, amigão. Se você se deu ao trabalho de conhecer essa lei aí, também deveria conhecer o caso do “polêmico” diretor Gerald Thomas, acontecido em 2003. Resumindo: ao final de uma apresentação de uma de suas peças de teatro, ele foi vaiado. Por conta disso, ele foi até o palco, “simulou uma masturbação” e, na sequência, baixou as calças e mostrou o loló pros espectadores. De acordo com o art. 233 do Código Penal brasileiro, ele tinha que ser preso de três meses a um ano, ou pagar uma multa.

Nosso amigo achou uma senhora palhaçada o povo querer processá-lo por ver a SUA bunda, enquanto que ver a dos atores e atrizes tava belezura. Recorreu ao Supremo Tribunal Federal e, assim, conseguiu o habeas corpus. Eles entenderam que o ato do diretor estava de acordo com o princípio fundamental da liberdade de expressão, “mesmo que sendo inadequada e deseducada”.

“Ah, mas um caso é completamente diferente do outro!”

Não, não é. Em ambos os locais, os presentes estavam participando de um evento onde já se espera ver determinado tipo de comportamento, imagens, situações e etc. Se imagine indo num desfile de escolas de samba e processando praticamente todo mundo por estar peladão em local público.

“Nem compara que não tem a ver! Isso é manifestação cultural e o outro é ultraje a símbolo nacional e…”

De novo: se isso fosse feito em uma peça de teatro, com um ator NACIONAL, dentro de um contexto, fazendo parte da história da peça. Aconteceria alguma coisa? Policiais invadiriam o evento em TODAS as apresentações? Não.

Bom. No ginásio, nós tivemos uma apresentação. Uma interpretação, de vilões e mocinhos. Pessoas agindo de forma diferente com pretexto de causar reações no público. Era só isso. Infelizmente, nossos oficiais aprendem a fazer cumprir a lei, sem interpretá-la. Quem tem que fazer isso são os advogados, depois que a aplicação cega da lei já foi feita, pra tentar remendar a situação e fazer valer o que sobrar de direitos humanos depois.

ALÔ POLÍCIA! (Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br)

Que fique claro que manifestações do tipo “os caras preocupados em prender o Jericho ao invés de ir atrás de políticos/ladrões/assassinos/insira seu vilão aqui” são ainda mais cretinas do que a situação de ontem como um todo. Outra estupidez ululante: “Esses gringos tem que aprender a respeitar o nosso país e enquanto vocês ficam aí pagando pau eles abusam mesmo e mimimi”. Sério, vocês são patéticos.

Fez errado, pague por isso. Mas antes de qualquer coisa, ASSEGURE-SE de que o que foi feito é realmente errado.

Quanto ao lado WWE da história, Jericho foi “suspenso indefinidamente” pela empresa — e jamais voltará ao Brasil como um WWE Superstar. Pode ter sido uma ótima forma de aproveitar a chance e dar as férias que o lutador precisava para sair em turnê com a sua banda de rock, a Fozzy. Pode ter sido programado desde o começo, apesar de fontes internas garantirem que não foi. Pode ter sido uma hipocrisia cretina, se comparado ao que Shawn Michaels fez em relação à bandeira canadense, em 1997. Ele enfiou a bandeira do Canadá no nariz, encoxou e o carvalho à quatro. Sabe o que aconteceu?

Nada.

Por quê?

Bom, aí vocês tiram as suas próprias conclusões. E que o façam baseados em algo além do que VOCÊS acham certo ou errado.

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