Quem somos? De onde viemos? Quem nos criou? Deus existe? Estas são algumas das perguntas que nos movem desde o surgimento do primeiro ser humano. Afinal, o milagre da vida é algo mágico, lindo. Algo que nos faz pensar se alguém ainda maior que isso nos proporcionou essa vida – e se estamos realmente sozinhos nessa imensidão do Espaço. Até porque quem nos criou pode estar por aí ou ter até mesmo criado outros como nós em algum lugar.

Então, pode-se dizer que desde o surgimento do primeiro ser humano olhamos para trás, nos interessamos pelo passado – algo que reflete, em parte, nos objetivos de nossas próprias vidas até hoje. Muita gente mira em objetivos futuros a partir de conquistas do passado (sejam suas ou de outras pessoas). E esta fixação pelo passado é o que move Prometheus.

No filme, os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são motivados por estas dúvidas fundamentais. Após escavarem diversos lugares no mundo, eles descobriram o que parece ser fortes provas de que seres alienígenas mantiveram contato frequente com diversas civilizações terráqueas através da história – cada uma delas vivendo em uma época e em local diferente da Terra. Em todos estes lugares existiam mapas, indicando o caminho para um distante planeta que pode comportar vida.

Uma descoberta fantástica para a ciência, que quase no fim do século XXI ainda não tem provas concretas de vida extra-terrestre.

Assim, os dois convencem um dos homens mais ricos do mundo, Peter Weyland (Guy Pearce), a financiar uma viagem até este planeta distante como uma forma de deixar uma herança antes de morrer – Weyland já está há tempos no bico do corvo. Assim, Elisabeth, Holloway e uma tripulação de 17 pessoas embarcam na nave Prometheus em uma viagem em que passam dois anos em êxtase para no final se encontrar, de alguma forma, com aqueles que podem ser nossos criadores.

Com esse pressuposto ~nobre~ começa uma viagem cheia de efeitos especiais dirigida por Ridley Scott. Uma viagem que foi, originalmente, pensada para ser um prelúdio de Alien – O Oitavo Passageiro. Ainda na pré-produção a ideia do produtor e roteirista Damon Lindelof mudou. Por isso, este não é, absolutamente, um prelúdio de Alien. Mas divide o mesmo universo, as mesmas ideias, os mesmos conceitos, parte do visual…

Prometheus conversa MUITO com o que foi feito na cinessérie de Alien – principalmente no primeiro filme. Ambas as produções se desenvolvem no mesmo universo e, em parte, o novo filme tenta trazer algumas respostas (e mais perguntas) relacionadas ao filme original. E talvez este seja o principal problema.

Para começar muita gente vai encarar Prometheus como um prelúdio de Alien, tentar encaixar fatos que não foram feitos para serem encaixados e coisas assim. Para você ter uma ideia, a nova tripulação vai para a lua LV-233. No entanto, o destino da tripulação da Nostromo em Alien foi o planeta LV-426. Senso assim, os fatos de um filme não influenciaram, necessariamente, os do outro, apesar de Prometheus se passar cronologicamente antes primeiro longa-metragem deste universo. Porém, só quem é realmente iniciado na franquia de Alien conseguirá entender esta sacada.

Este, aliás, é o segundo grande problema de Prometheus: você precisa realmente ser iniciado no universo de Alien para entender tudo aquilo que o filme te traz. Desde o ciclo de vida dos seres alienígenas encontrados até o nome da companhia que leva os exploradores à LV-233, todos são elementos importantes para o entendimento da história e ninguém vai te explicar. Caso você não saiba disso previamente, o filme fica capenga.

Ok, o filme fica capenga também por ter um roteiro (ou montagem) capenga. No cinema me senti como se estivesse vendo Blade Runner pela primeira vez, em seu corte original. Ou seja, um filme mutilado. A diferença é que o épico oitentista do próprio Ridley Scott já era um grande filme em sua versão de cinema, que entrou para a história e cresceu muito mais em sua versão do diretor. No caso de Prometheus, o longa fica diminuído. Faltam coisas. Você sai do cinema com uma sensação de “e…?”.

Isso tem um efeito até no aproveitamento dos atores. Charlize Theron está, mais uma vez, sensacional no papel de Meredith Vickers, a enviada pela Weyland para acompanhar a expedição. Só que as motivações dela se perdem no meio do filme, deixando uma personagem que poderia ser incrível em segundo plano. Idris Elba, no papel do capitão Janek, também passa por algo parecido, mas em menor escala.

Outro personagem mal aproveitado é o de Michael Fassbender. Como o androide David o ator tem uma grande importância, mas você precisa forçar um pouco sua imaginação, buscar links com os antigos filmes de Alien e ter um pouco de boa vontade para que todas as ações do personagem façam sentido.

A forma que a história é construída, inclusive, faz com que alguns plot twists percam importância dramática. Há um deles, que é uma aparição inesperada, que praticamente acontece como se fosse um “ah, você tá aí?” e pronto.

Para finalizar a lista de problemas, fica clara a tentativa de Lindelof e Scott de transformarem a Noomi Rapace em uma nova Sigourney Weaver, uma personagem forte que consegue superar os maiores perigos. Alguém que consiga carregar nas costas uma franquia, assim como foi com a personagem Ellen Ripley. Podemos até concordar com a escolha, mas não poderiam ter construído um personagem diferente ao invés de uma reinterpretação de uma antiga?

Sim, eu falei na construção de uma franquia. Não sendo um prelúdio de Alien, então pode desenvolver uma história própria dentro do universo dos outros filmes, buscando respostas sobre de onde viemos, para onde vamos e porque estes seres de outro mundo querem nos matar.

O filme é bom? Tá aí algo que não se pode responder por completo. Talvez quando for lançado em Blu-ray, em sua versão final, eu possa te responder. Até agora acho que vi apenas um preview de duas horas de duração.

O que posso dizer, apenas, é que Prometheus tem uma direção é interessante, o visual é incrível, os efeitos especiais ótimos…

Só acredito que, no final das contas, Prometheus não precisasse dessa desculpa de se passar no mesmo universo de Alien. Assim como aprendem Elizabeth Shaw e Charlie Holloway, tem coisas que são melhores que fiquem lá no passado, quietinhas. Mexer com elas pode trazer mais problemas do que soluções.

Pena que Ridley Scott não preste atenção na própria lição que está dando.

Ah, sim: não levante a bunda da cadeira no primeiro fade out no fim do filme. Há ainda uma cena final, antes dos créditos. Uma cena que, para os fãs de Alien (aos quais o filme se dirige, pelo jeito que foi montado) era mais do que esperada. Um anticlímax, mas que funciona muito bem com quem não tinha entendido NADA de Prometheus até aquele momento.

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