A primeira coisa que você precisa fazer, em relação a esse filme é um pouco complicada e muito, muito necessária: esqueça os trailers. Esqueça, na verdade, meio que tudo o que você sabe sobre ele. “Grandes poderes, grandes responsabilidades” é coisa do cara que usa colã vermelho e azul e sai se pendurando por paredes. Poder sem Limites está longe de ser um filme de super-herói em que alguém, com super-poder, faz alguma merda e assim nasce o vilão.

Não é assim tão simples, a história, que gira em torno de Andrew e a origem de um vilão daqueles que tem grandes problemas com o pai — problemas esses que refletem em seu jeito de ser em casa, na escola e, óbvio, formam um círculo vicioso, já que vilão que simplesmente quer o mal, por querer, não cativa ninguém.

O filme é um daqueles “found footage”, com quase 100% dele filmado em “primeira pessoa”, ou de maneira que não pareça que exista alguém filmando toda aquela ação. “Vivemos em um mundo em que se ponde filmar qualquer coisa, o tempo todo”, disse o diretor Josh Trank, em uma “coletiva de imprensa / chat” online, realizada no fim de Janeiro. “Os estudantes de hoje são os mais fotografados de toda a história. (…) No futuro veremos muitos filmes inspirados nesse tipo de filmagem”.

Concordo com ele sobre tudo, mas acho que é um pouco de exagero criar uma personagem “videologger” só pra poder manter a primeira pessoa quando o personagem principal não está presente. Também achei exagerado, ainda que uma boa solução, usar imagens câmeras de segurança pra mostrar outras partes da história que, num determinado momento, teve de apelar para as câmeras de redes de TV e, quando não deu mais, usou a câmera terceira pessoa, a tal da quarta barreira. “Josh deu a ideia de nos deixar usar a câmera com nossos poderes, do mesmo jeito que usamos um joystick pra controlar um videogame”, disse, durante a mesma conferência, Dane DeeHan, que interpreta o protagonista Josh, o cara que só larga a câmera quando a controla remotamente, usando o poder da mente. “Isso permitiu que o filme misturasse ‘found footage’ e filmagens clássicas, e o público pode ser o quarto jogador da história”.

Quem você acha que tirou essa foto? Dica: está sorrindo e é loiro.

“Principalmente, eu queria que a audiência curtisse a história e saísse do cinema sentindo fazer parte de algo”, explicou Trank. Bom… Isso não funcionou comigo. Há certas regras pra se usar essa técnica e eu não consegui embarcar na ideia de que estava vendo algo importante, encontrado ou, como ele quis, que eu fazia parte daquilo.

E assim, com e por causa da câmera, Andrew, Matt e Steve encontram — e filmam — alguma coisa aparentemente alienígena, uma fonte de energia num buraco, que dá aos três o poder da telecinese, que começa simples, parando uma bola de baseball, montando uma construção de LEGO, e vai até o ponto do descontrole total do que fazer com aquilo, passando, claro, pelos planos de voar pelo mundo, simplesmente porque eles podem. Como disse DeeHan, “pra variar, a pessoa que consegue os super-poderes não é o cara legal que quer salvar o mundo”.

Josh, Steve e Matt: Boys just wanna have fun

Steve, o representante de classe, o mais popular, o “futuro presidente dos EUA”, é o cara que só quer se divertir com os poderes. Voar um pouco, levantar a saia de uma mulher ou outra, fim. Matt, o cara que se acha filósofo, é o que pensa em usar os poderes pra algo mais importante, ou nem sequer falar sobre eles. Andrew, por sua vez, é o moleque que a vida inteira sofreu bullying, tem sérios problemas com o pai alcoólatra, mãe doente e se vê ficando popular depois de um “show de talentos” em que mostrou, de leve, os poderes. Com fama e popularidade, chega a mulher… E, como sempre, é aí que a vida do cara muda — já que poderes de telecinese não necessariamente fazem com que ele possa transar com uma menina, ou acabar com todo o nervosismo de uma primeira vez… E aí, meu amigo, nasce um vilão.

“Tudo é uma questão de quem somos, e de onde viemos, como pessoas”, disse DeeHan. E é isso: o cara sempre se fode, consegue seus 10mins de awesomeness por conta dos poderes e, ainda assim, se fode de novo. E perde a mãe. E o pai bebe e coloca a culpa de tudo no seu ombro. E você tem esse poder, que te faz acreditar que é mais importante do que os outros, ou maior…

Sabe X-Men? Mistura com o “massacre de Columbine”. Poder sem Limites tá longe de ser um filme sobre um super-herói, ou mesmo um super-vilão. É uma história humana e até relativamente séria. Não que seja uma propaganda anti-bullying, mas as últimas cenas do filme chocam um pouco. Sabe aquela coisa de conseguir sentir o ódio, raiva, medo que o outro sente? Sem dar razão, mas compreender e saber que, qualquer um de nós, no lugar dele, poderíamos fazer SIM a mesma coisa?

Michael B. Jordan, que interpreta Steve, afirmou que não se surpreendeu com a recepção do filme na internet, porque “aquele trailer foi feito pra despertar a atenção de todo fanboy, todo fã de quadrinhos, todo mundo que gosta de Akira, e Carrie, A Estranha, esses tipos de filme”… Fato. Mas pode acabar atrapalhando um pouco o resultado final, com o pessoal esperando uma coisa que não vai ver.

Aliás, me lembrou até um pouco Heroes, só que ao contrário. A série era, pra alguns, a coisa mais empolgante e sensacional do mundo, no começo da primeira temporada, e tinha a treta final que prometia endoidar o UNIVERSO… E deu no que deu. Poder sem Limites começa um pouco devagar, não chega a ser empolgante mas PUTAQUEMEPARIU a última sequência. :D

Só torcer agora pra que não surja uma sequência, no estilo daquele Bruxa de Blair 2. Porque “Poder sem Limites” funciona sozinho. Tem seus defeitos, incomoda um pouco em alguns momentos, mas funciona. Se resolverem explicar o que é, e de onde veio, aquela fonte dos poderes, a franquia vai se perder. Lembrem-se, amigos: com grandes poderes… Yadda, yadda, yadda. ;)

One more thing…

Aí embaixo você confere o vídeo do tal do livechat que a gente participou, e pode ouvir um pouco mais sobre filme, os atores, diretor… :)



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