Super-Homem. Foi assim que conheci, pela primeira vez, o primeiro dos super-heróis. Não foi pelos quadrinhos, mas sim em um dos filmes estrelados por Christopher Reeve. Desde então, o Último Filho de Krypton esteve muito ligado à minha vida. Foi por ele por onde comecei a ler as HQs de super-herói (tudo por causa da morte do personagem!) e, de certa forma, é por causa dele que comecei a conhecer a profissão de jornalista – por conta da série As Novas Aventuras do Superman, focada muito mais na vida de repórter de Lois Lane e Clark Kent do que nas aventuras de colã, cueca e capa.
Confesso que demorei um tempo para ter um entendimento sobre os filmes do Superman – como hoje o personagem é chamado nas HQs, TV e cinema. Quando era criança, o que importava é que eram divertidos. Depois, finalmente compreendi a grandiosidade do primeiro Superman, de 1978. Além de ser a primeira grande adaptação de um super-herói para o cinema, a história ali contada era incrível. Ela traz, claro, um ar de ingenuidade, uma trama simples e um vilão de superpoderes, mas é também o retrato de um era do Homem de Aço, com seus poderes grandiosos e enredos bem imaginativos, além de abordar de uma grande forma o relacionamento entre Kal-El/Superman/Clark Kent e Lois Lane.
Era um Superman que, no final das contas, não era tão escoteiro como todo mundo imaginava, passando por cima da vontade do pai e dos interesses de todos na Terra apenas para salvar a vida da amada. Pena que poucos percebam essa grande sacada do roteiro hoje em dia.
Nos filmes seguintes a fórmula desandou. Em Superman II uma briga entre a Warner e Richard Donner tirou o diretor do filme, que teve que ser drasticamente modificado e refilmado. No terceiro longa uma catástrofe ainda maior, com um Richard Pryor péssimo como vilão e uma história longa e fraca. O quarto filme nem merece ser criticado, tendo em vista a forma como feito e o baixo orçamento.
O que ficou para a história foram quatro grandes atuações de Christopher Reeve. Como ninguém ele entendeu que a história do Superman era, na realidade, a história de três personagens: o Clark Kent de verdade, aquele com seus medos, amores e desejos; o Clark Kent de Metrópolis, que usava os óculos como máscara e demonstrava uma grande ingenuidade apenas para acobertar sua identidade secreta; e o Superman, que era a máscara sem máscara, alguém que vestia a couraça da verdade, justiça e o modo americano e dizia nunca mentir – uma mentira por si só, aliás.
Até hoje as diferentes interpretações de Christopher Reeve para o mesmo personagem são um paradigma. Ele não mudava apenas o tom de voz, mas também a postura, os ombros, o andar…
Uma tentativa no século XXI
Por toda essa representatividade do Superman em minha vida, me empolguei bastante há alguns anos quando foi anunciado Superman – O Retorno. Lembro que vi e revi o teaser-trailer, aquele com a incrível trilha de John Williams para o filme de 1978 e a fala do Marlon Brando como Jor-El, inúmeras vezes.
Pena que aquele filme dirigido por Bryan Singer tenha sofrido de várias escolhas erradas. Para começar, a principal era que o longa-metragem se colocava como uma continuação dos filmes estrelados por Christopher Reeve. Ou melhor, como um novo “Superman III”, apagando os dois filmes anteriores.
Aquele Superman dos anos 70 e 80 era o resultado de uma época, de um momento no qual os super-heróis estavam começando a aparecer com peso em outras mídias. Era também uma visão que, talvez, pareça ser muito ingênua para esse tal de mundo moderno. Além disso tudo, a escolha do diretor colocava um enorme peso nas costas do novo ator principal, Brandon Routh. Ou ele ficaria abaixo de Reeve ou, no melhor das hipóteses, estaria apenas copiando o antecessor.
Quando pude finalmente ver o filme na sessão para a imprensa, eu gostei. Gostei como fã. Era uma colagem de referências aos filmes anteriores, uma grande homenagem a Reeve, Richard Donner e Gene Hackman. Só que o cinema de hoje, no que se refere aos blockbusters, não tem espaço para homenagens. É preciso fazer dinheiro. Como o público em geral não entendeu muito bem aquilo tudo, os resultados financeiros não foram como o esperado… E, bom, a consequência você já sabe.
Ok, não posso culpar o público por não ter gostado do filme apenas por não terem gostado das homenagens. Houve falhas, sim.
O Homem de Aço
Por tudo isso, confesso que minha maior curiosidade no sábado da última San Diego Comic-Con era saber o que seria anunciado em relação a O Homem de Aço. O que o diretor Zack Snyder teria para nos apresentar?
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Quando o diretor subiu no palco e apresentou bem ali na minha frente o trailer exclusivo para o evento, minha curiosidade se converteu em esperança. Como já falei destas imagens aqui no Judão, não vou ficar me repetindo sobre o que foi apresentado.
Por tudo aquilo mostrado na enorme tela do Hall H ficava claro que Snyder está indo para um caminho completamente novo para o herói nos cinema. É perceptível naquele trailer novas influências vindo dos quadrinhos, revelando o Superman não exatamente como um messias e com novos ângulos para se mostrar os poderes que todos nós conhecemos.
Quando o painel foi aberto para perguntas do público veio uma polêmica declaração do diretor. Ao ser questionado sobre o uso da trilha composta por John Willliams para o primeiro filme, Snyder afirmou que eles vão utilizar músicas completamente novas. “Queremos que este filme seja visto como se não tivesse existido nenhum outro antes”. Muita gente entendeu aquilo como uma afronta ao trabalho de Christopher Reeve e Richard Donner. Tal sentimento foi aprofundado ainda mais quando um fã afirmou no microfone que, a partir daquele trailer, sabia que agora viria uma produção do Superman a partir da qual poderia finalmente bater no peito e falar que era fã do personagem sem medo de ser zoado.
Não tiro a razão de ambos. Snyder sabe do grande fantasma que existe em volta do Azulão, um fantasma que perseguiu também Bryan Singer. Só que ao contrário do antecessor, que abraçou esse fantasma e morreu no inferno, Snyder quer fugir o máximo possível de qualquer comparação. Afinal, O Homem de Aço é uma nova interpretação do personagem e deve ser encarada como tal.
No caso do fã é fácil explicar a frase: por mais que ele goste dos filmes antigos, eles estão completamente fora do contexto de ume geração que viu Batman – O Cavaleiro das Trevas e Os Vingadores nos cinemas. O que ele tem para contra-atacar as piadas? Smallville… ?
Pena que, na semana seguinte a Comic-Con, fui conferir Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge no cinema e deparei com um trailer que, no final das contas, era um pouco a antítese do que tinha visto do painel do filme. Digo isso pelo potencial das cenas exibidas na SDCC. Há muita coisa ali que poderia ser agregada ao vídeo sem estragar detalhes do roteiro. Uma pena. Era uma chance de revelar para todo o mundo que Zack Snyder está trazendo uma nova visão para o Superman. E isso É importante, como a fala do fã deixou claro na Comic-Con.
Um personagem, diversas origens
Fato é que o Superman é um super-herói único. Dentro de um conceito maior cabem inúmeras ideias e interpretações. Desde a criação do personagem existiram nada menos que sete origens canônicas para o personagem dentro do Universo DC, fora universos paralelos importantes, como o da recente Terra Um, e de minisséries como Entre a Foice e o Martelo. Li todas estas versões, tenho todas aqui do meu lado, em minha estante (quer dizer, quase todas: a mais recente, a versão do reboot da DC, está no meu iPad) e posso dizer: não existe uma verdade sobre o Superman. O que existe é um conceito, maior que o “Superman bundão” que muitos enxergam ou o “Superman de moral duvidosa” da época que foi criado, em 1938.
Pelo que vi na Comic-Con, Zack Snyder parece que entendeu isso e está criando algo que traz uma nova interpretação. Uma interpretação que não é única para o personagem nos quadrinhos, mas que é única para uma audiência maior, a audiência dos cinemas.
Vale lembrar que a série dos anos 90 foi bem sucedida justamente nisso. Ela não se prendeu ao fantasma dos filmes e tentou capturar a essência dos quadrinhos naquela época – e que também dariam certo com um orçamento mais enxuto. Por isso o centro das atenções era o Planeta Diário e os casos desbravados por Lois e Clark. Tanto é que, mês passado, foi uma emoção indescritível para mim quando pude finalmente conhecer o prédio do Planeta Diário na Warner Studios. Foi, de certa forma, um ciclo que se fechou. Se um dia aquela série foi uma das influências que me levou a ser jornalista, eu estava ali, levado pela minha carreira como jornalista, conhecendo o grande prédio daquele programa.

Reconheceu? É o prédio do Planeta Diário de As Novas Aventuras do Superman, ainda conservado na Warner Studios!
Agora temos uma nova produção do Azulão para estrear em 2013. Que seja mais um ciclo que se inicie. Não sei você, mas eu estou confiante. E, de qualquer forma, o que sair de O Homem de Aço não pode ser pior do que já foi feito no passado.
Um beijo para você, Helen Slater.
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