Sexta-feira, 21 de Março de 2008 | Atualizado em 21.03.08 às 23h32

As Crônicas de Spiderwick


Adaptação traz tranqüilidade e coerência ao agitado mundo da fantasia no cinema

Barretão
, DE LOS ANGELES

spiderwick.jpg
Numericamente, vivemos um dos momentos mais agitados em termos de adaptações de livros de fantasia para o cinema. Os últimos três anos têm sido grandiosos para o gênero, mas toda essa quantidade de filmes causa cansaço e, inevitavelmente, prejudica tanto as produções — que aceleram o passo para estrear antes de seus concorrentes diretos — quanto o público, que começa a considerar tudo a mesma coisa. Eragon, Ponte para Terabítia, Stardust – O Mistério da Estrela e A Bússola de Ouro que o digam. Mas a estréia de As Crônicas de Spiderwick parece aliviar um pouco toda essa correria.

À primeira vista, Spiderwick já tem uma vantagem em relação a seus concorrentes: a interpretação de Freddie Highmore, o nome mais bem-sucedido do mercado quando se fala em filme de fantasia. O garotinho inglês, que completou 16 anos em Fevereiro, mostra-se um competente ator de gênero e, quase sempre, leva seus filmes ao sucesso. A primeira referência de peso de sua carreira foi Em Busca da Terra do Nunca, no qual interpretava ninguém menos que o alter ego de Peter Pan. Tudo começou, porém, quando ele pisou na sagrada terra de Viviane em As Brumas de Avalon, a minissérie da TNT, na qual ele viveu o jovem Rei Arthur. Completando a filmografia de peso: A Fantástica Fábrica de Chocolate, Arthur e os Minimoys e o recente A Bússola de Ouro, emprestando a voz para o daemon (DÍMOM é a MÃE!) Pantalaimon, além do despretensioso, mas divertido, Cinco Criaturas e a Coisa.

Agora, neste filme, Highmore vive dois personagens — os irmãos Jared e Simon Grace — que integram uma família em transição depois da partida do pai. Encontramos a mãe (Mary-Louise Parker, de Weeds), os garotos e a irmã esgrimista, vivida pela talentosa e angelical (…) Sarah Bolger (que fez a pequenina de Terra de Sonhos, de Jim Sheridan), mudando-se para o interior. O destino é a antiga casa da família, propriedade de Arthur Spiderwick (David Strathairn, de Um Crime de Mestre), um explorador que descobriu o segredo das criaturas mágicas. Ah, ele foi raptado por fadas! o_O =D

O livro resultante de seus estudos contém as tais Crônicas de Spiderwick, o legado de uma vida e também um terrível segredo que, caindo nas mãos do ogro Mulgrath (Nick Nolte, se divertindo numa aparição curta), pode significar o fim de todos os seres vivos. Arthur Spiderwick defende que o mundo mágico existe, porém nós é que não podemos vê-lo. Mas, depois que cai a cortina, não há limites para as maravilhas que nos esperam. E, como em toda boa história, os vilões também estão por lá.

Só que os acontecimentos de As Crônicas de Spiderwick fazem sentido com o momento vivido pela família Grace. Embora Jared — o filho rebelde — não saiba, o pai das crianças deixou de contar um segredo terrível ao garoto e isso catalisa diversos conflitos entre ele, os irmãos e, especialmente, a mãe. É Jared que encontra o livro de Spiderwick e, mesmo contra todos os avisos, resolve abrí-lo, se enfiando no meio de um rodamoinho de descobertas e de decisões que vai levá-lo a entender seus próprios medos e enfrentar provações tão terríveis, que nem mesmo Arthur foi capaz de superar oitenta anos antes.

Tudo é muito bem arranjado neste filme. O roteiro é honesto dentro dos conceitos do gênero, não propõe nenhuma grande novidade e é efetivo quando trata dos problemas familiares. “Foi importante trazer o conceito de realidade com toda a situação familiar”, explica o roteirista Karey Kirpatrick, um sujeito que escolhe bem até mesmo as palavras que usa quando vai falar, em entrevista à revista Sci-Fi News (e ao Judão, óbvio!), em Los Angeles. “Era essencial que aquilo que acontece na vida real se refletisse também nos problemas envolvendo o mundo mágico e que a eventual solução estivesse no encontro desses dois universos, ou seja, eles precisavam encontrar uma nova forma de harmonia, tanto dentro quanto fora de casa, para sair de todo aquele caos”. Freddie Highmore tem ótimas oportunidades de atuar tanto sozinho quanto em grupo. Aliás, não fosse um deslize ou outro dos efeitos, as cenas entre os irmãos gêmeos ficariam impecáveis.

E é justamente essa sensação de coesão e organização que faltou, por exemplo, ao muuuuito rápido A Bússola de Ouro.Spiderwick não aspira a recordes de bilheteria e talvez, por isso, possa se dar ao luxo de dosar drama e ação, enquanto seus personagens são construídos e a mitologia apresentada ao público. Não li os livros por opção e, como total leigo nessa trama, posso afirmar que, há tempos, um filme de fantasia não soava tão agradável e atraente como esse. Seus personagens são autênticos, têm problemas próprios e não agarram a fantasia como maneira de fugir da realidade; sendo, na verdade, envolvidos numa trama alucinante, que, por fim, vai guiá-los em suas vidas pessoais. “Fui chamado para trabalhar no roteiro no meio das filmagens e tivemos que adaptar muitas coisas, mas fiquei feliz quando os autores explicaram que o importante era pegar a essência do mundo que eles criaram e montar algo novo a partir dali”, lembra Kirkpatrick. “Não precisei ficar prestando atenção a cada palavra e conceito do livro para uma reprodução exata, pude chegar a um resultado que pertencesse ao mundo de Spiderwick sem ser totalmente literal. Tudo ficou muito mais autêntico e passou uma sensação de plausibilidade e novidade até mesmo para quem já leu todos os livros”.

As criaturas de Spiderwick foram feitas com notável cautela pelos técnicos da Industrial Light&Magic, que não cometeram nenhum deslize e inseriram trolls, goblins, fadas e os demais monstrengos direitinho no filme, com o devido contraste e balanceamento dos bichos com o cenário em si. Tal discrição deixa todo o espaço para o roteiro, que é o que realmente interessa num filme desses. Afinal, sem uma boa história, presta-se atenção apenas no desfile de efeitos especiais. E história, Spiderwick tem de sobra.

Novos Caminhos para o Gênero
Ao contrário do divertido Arthemis Fowl, que aposta num mundo mágico cheio de tecnologia e artimanhas, Spiderwick recupera o senso de natureza e a necessidade de balanço entre os dois mundos. É como se o esgotado Livro de Fadas Prensadas de Lady Cottington, do Phyton Terry Jones, tomasse forma e suas criaturas voassem mundo afora, sem que ninguém visse, é claro. Existem regras, sempre regras, que impedem a descoberta dos segredos do livro, porém, ao mesmo tempo em que precisam resolver o enigma, os jovens irmãos são forçados a testar esses limites, mesmo que coloquem a própria vida em risco para chegar a uma conclusão. Ou seja, o que vale aqui é a inteligência e a esperteza. Nada de passe de mágica para os personagens ficarem superpoderosos.

De acordo com Kirkpatrick, a pesquisa alternativa ao material disponibilizado pelos autores também ajudou muito. “Mas aí você entra no Google, escreve ‘fada’ e aparecem dezenas de milhares de páginas. Por onde começar? Nesse ponto, o Guia de Campo de Spiderwick ajudou muito, pois eu sabia quais os elementos mais presentes na série e como eles deveriam ser inseridos no roteiro. Nada ficou exagerado”, orgulha-se o roteirista. E ele está certo. O bom-senso reina em As Crônicas de Spiderwick.

Mais que um longa-metragem para família, As Crônicas de Spiderwick pode ajudar essa “geração MSN” a encontrar um pouco dos princípios morais e éticos que, infelizmente, inexistem nos mundos virtuais, programas de bate-papo e comunidades do Orkut. Afinal de contas, é disso que contos de fadas tratam: difundir conceitos de ética e respeito que regem e que mantêm sóbria nossa sociedade há séculos. De qualquer modo, temos aqui um merecido respiro em meio a tantas estréias apressadas no mundo da fantasia. Judão RECOMENDA! mesmo para quem se acha adulto demais para essas coisas!

As Crônicas de Spiderwick
(The Spiderwick Chronicles, EUA 2008)

Direção: Mark Waters

Roteiro: John Sayles e Karey Kirkpatrick

Elenco: Freddie Highmore, Mary-Louise Parker, Nick Nolte, Joan Plowright, David Strathairn, Seth Rogen, Martin Short

Site Oficial: AsCrônicasDeSpiderwick.com.br

Nota do JUDÃO

[ratings]

Comentários
Já são 13 sobre esse post -- até agora

  Spiderwick: uma feliz surpresa | S.O.S Hollywood

[...] e agora o filme estreou e posso falar um pouco mais dele. Escrevi dois textos que pode ser lidos aqui e aqui (nesse, por favor, muitos cliques, comentem lá também, pois ajuda a dar resultado pro [...]

22 de Março de 2008 às 3h06
  {Yusuke}

por falar em arthemis fowl, um dia vão fazer um filme de um dos maiores gênios da ficção?

22 de Março de 2008 às 4h03
  Barretão

Oi Yusuke, o Arthemis até tem potencial, mas sabe que nunca imaginei um filme dele? Quando entrevistei o Eoin Colfer, aí no Brasil mesmo, ele até falou que alguns estúdios estavam interessados, mas nao achava que fosse evoluir muito. Arthemis funciona bem como literatura. Já não sei se como filme.. e todo o lance dele ser anti-herói pode ser um fator que “espanta” os estúdios, pois, afinal de contas, ele é mais juvenil e nao tem apelo para adultos mesmo.

Abs,

22 de Março de 2008 às 14h29
  André

Adaptações de livros de fantasia estão começando a saturar…

22 de Março de 2008 às 15h23
  Pedro Ivo

Esse filme parece ser bom mesmo, acho que vou ter que ver ele no cinema…
Barretão, concordo com em que Artemis Fowl é não tem apelo para adultos, mas que seria legal ver um moleque metido a besta fazendo aquelas tramas todas na telona seria… é um livro bom qeu te prende a leitura, se alguem conseguisse fazer o mesmo com um roteiro ia fazwer um filmão.

23 de Março de 2008 às 19h53
  Barretão

@ André
Pois é, é só ler o texto e ver o filme para entender pq essa não satura… coisas ruins saturam, coisas boas acrescentam! :)

@Pedro
Total… só tenho medo que fique infantilóide mesmo, mas aquele mundo mágico/high tech é tudo de bão! :-p

24 de Março de 2008 às 14h30
  V

Acho legal filmes de fantasia. Meus preferidos são História Sem Fim, Labirinto e Stardust.
Eu li o primeiro Artemis Fowl e acho que daria um ótimo filme se não tirar o anão que cava com a boca.

25 de Março de 2008 às 1h31
  Squall Hetfield

Assisti ao filme ontem (dublado, infelizmente, não há uma cópia legendado dessa porra) e achei fantástico!!

Concordo com tudo que o Big Barreto disse - ótima resenha, aliás - que esse é um filme que apresenta as coisas devagar, com cautela, não vai apenas jogando trolls, goblins e fadas na tela sem nenhuma razão aparente…

Cada ser mágico aparece na hora em que deve aparecer, sem exageros, e sem que isso seja usado apenas para desviar a atenção de um roteiro mal escrito…

Só acho que as fadas (que moram nas flores da Tia Lucinda) podiam ter aparecido mais, não pude vê-las bem como eu gostaria…

A idéia de um “mundo mágico” no quintal de casa é sensacional… Nada de novos mundos, Guarda Roupas, expressos mágicos ou vassouras… O mundo mágico está logo ali, para quem quiser, ou melhor SOUBER, ver…

Sem contar que, há algumas sacadas originais, que há muito eu não via em um filme do gênero… O esquema do cuspe do Trasgo “abrir os olhos” dos humanos é simples e ainda assim, genial!!

O lance da pedra para enxergar as criaturas, o circúlo protetor feito de cogumelos… Nada mirabolante, coisas plausíveis (é um filme de fantasia, não é?!?) e que não soam (tão) exageradas…

Sem contar a “participação” de um Griffo!! Caraca, que saudades desse bicho!! Até me lembrei de God of War II!! XD

Esse filme entrou fácil para o meu “TOP 5″ de filmes de fantasia…

Que sirva de modelo para futuras produções do gênero…

Há muitos livros EXCELENTES que infelizmente estão resultando em péssimos livros, muito rápidos, com muitos efeitos, e uma história profunda feito uma colher de chá…

Enfim…

Por mais que a área esteja saturada, sempre há espaço para boas surpresas!!

26 de Março de 2008 às 11h24
  Squall Hetfield

Errata:

“Há muitos livros EXCELENTES que infelizmente estão resultando em péssimos FILMES” =P

26 de Março de 2008 às 11h25
  Barretão

V

Anao que cava coma boca e CAGA TERRA! :) hahahah

Squall
Beleza de comentário! :) Esse filme entrou pro meu TOP 3, aliás, é o melhor dos últimos anos.

27 de Março de 2008 às 4h44
  Dark

Já vi muitos filmes ruins… mas esse bateu todos os recordes… filme terrivel, sai do cinema antes do filme acabar! Não valeu nem os 3 reais que eu paguei pra ver!!!

30 de Março de 2008 às 11h41
  Igor Augusto

Achei um filme de fantasia excepcional na nova safra de filmes deste gênero.
Nota 8 =D

6 de Abril de 2008 às 23h36
  Maju

Ameii….Fui na feira do livro de minha cidade e vi o livroo…A primeira vista..Mi apaixonei!!!!♥
Esperoo q o filme seja bom!!!!
Apesar de ter sido lançado a um tempo…
Só agora descobri meu interesse pelo livro….
Vou locar o filme e depois posto sobre o que achei do livro….
MaJú****
;*

6 de Setembro de 2008 às 20h45
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