Com a sala já suja de baba, sangue e dentes por tudo o que havíamos visto até aquele momento, Peter Jackson se despediu — “Preciso ir cuidar de um pequeno filme que estou fazendo” — e nós rumamos aos trocentos QGs da Weta naquela cidade — que tem até nome de rua em “homenagem”.
Aliás, uma coisa muito legal lá de Wellington: todos esses lugares que visitamos eram em ruas residenciais, tranquilas. Difícil sequer IMAGINAR isso acontecendo, mas é verdade. Você, sei lá, pode estar na porta da sua casa e dar de cara com o vizinho Peter Jackson. Puxa, não? :D
A primeira parada foi na Weta Digital, onde fomos recebidos por uma fantasia de Elfo sensacional, usada em Senhor dos Aneis, além de um Orc. Lá, o divertido Gino Acevedo, supervisor de protéses e diretor de arte de efeitos visuais de criaturas, falou um pouco sobre a criação dos personagens — usando como exemplo o Capitão Haddock — na sala em que, todos os dias, eles faziam vídeo-conferências com Steven Spielberg, que via o que tava pronto, aprovava, ou não, e enfim.
Foram mostradas imagens conceituais, desde as mais iniciais, até o modelo final, e como uma cena é construída — foi usada aquela mesma que eu citei, logo no começo, em que ele vai baforar no tanque do avião, pra dar um up no combustível. Mais uma vez, o sorriso imbecil na minha cara apareceu logo na primeira demonstração de “evolução” do design do personagem, mas eu fiquei maluco mesmo foi quando rolou a explicação de como eles conseguem as texturas.
Pra que a pele dos personagens se pareça com, bem, pele, é usado, primeiro, uma líquido verde, muito parecido com silicone, que em poucos segundos seca e fica parecendo uma borracha. Esse líquido pega cada impressão digital, cada poro da pele — e eu sei disso porque eles colocaram um pouco do líquido na minha mão. Foi TÃO LEGAL. :D
Com o a “borracha” pronta, eles usam um scanner especial pra passar aquela textura pro computador, onde então aplicam no personagem. Eles mostraram alguns outros exemplos de textura scanneada, aplicando-a no Haddock, e era bizarro ver aquela “cara” toda aberta, só com os espaços de olhos e narinas, virando a pele de um personagem que, até então, parecia de cera, brilhante… :D
Essa mesma técnica é usada pros props, como por exemplo uma mão que estava passando por todos lá. Ela REALMENTE parecia uma mão de verdade. Sem cor e pesada demais, mas realmente parecia uma mão. E é meio… CREEPY. :D
Foram mostradas também algumas comparações com os personagens das HQs e como eles adaptaram para os filmes, pra que parecesse real — como a barba de Haddock que, se fosse feita como nos quadrinhos, iria parecer um lobisomem mexicano. :D
Depois de mais essa demonstração, partiu agora pra Weta Workshop, o lugar em que, em resumo, eles criam as coisas mais “físicas” — desde máscaras, espadas, elmos, armaduras (você assistiu a Senhor dos Aneis, sabe do que tô falando) até os bonecos e estátuas que são vendidos ali do lado, na Weta Cave, e no resto do mundo, pela internet.
Por conta dos trabalhos com “O Hobbit” e “Elysium”, só tivemos acesso a uma sala de reuniões, onde Richard Taylor e Chris Guise, respectivamente um dos fundadores/diretores da Weta e o designer chefe, mostraram algumas imagens do livro The Art of the Adventures of Tintim, escrito por Guise. Lindo ver a comparação entre locações reais da Bélgica, que foram desenhadas por Hergé e, agora, estão no filme — bem como comparações entre os cenários, personagens e cenas de histórias. Esses livros são fantásticos pra fãs de cinema como um todo.
Mas, ainda mais fantástico, ainda mais impressionante, era aquela sala de reuniões. Em uma das paredes, que ficou de frente pra mim, de ponta a ponta, prateleiras recheadas com todas as estátuas já criadas por eles, de todos os filmes — na mesa, os de Tintim. Pela primeira vez mostrados, podendo ser tocados. É de babar, de endoidar, de querer nunca mais sair dali — ou pegar aquela estante toda e trazer pra dentro do próprio quarto. No máximo eu deixaria aquelas estátuas repetidas de uns homenzinhos dourados, carecas e pelados, que estavam em cima daquela estante. O que será que era aquilo? ;D
Do outro lado, nas minhas costas, todos os certificados de indicações às principais premiações do cinema — Globo de Ouro, BAFTA, Oscar etc. Todas, de todos os filmes que tiveram a assinatura Weta. Obvio que “Senhor dos Aneis” domina quase 90% da parede, caso você esteja pensando. Tudo emoldurado, brilhando, “não toque”.
Foi doloroso sair daquela sala, mas ainda tínhamos de passar pela Weta Cave — que, aprendendo direitinho com os Americanos, foi a última parada da Weta. E a Weta Cave é, em resumo, uma loja — falei sobre ela aqui. Lá nos assistimos a um vídeo de 15 minutos, contando a história deles até o dia de hoje, devidamente protegidos por armas usadas em “Senhor dos Aneis”, e tivemos alguns minutos pra passear na loja e comprar o que por acaso fosse dar na telha — e tinha muita coisa que eu nem sabia que existia, do Tintim, algumas até no idioma original. Colecionador lá, nunca mais volta.
Mas a gente precisava voltar pra Park Road Post Productions, onde almoçamos e, na sequência, passamos pelos estúdios de som. Numa das salas, o designer estava adicionando a trilha sonora e, como demonstração, mostrava uma cena sem a música, e com a música, e sem a música, e com a música, deixando clara a já óbvia importância do som para uma história; no outro, a sala de “mixagem de som”, deu pra entender um pouco porque dão Oscar pra isso. O designer mostrou a mesma cena algumas duzentas vezes, cada uma com um dos sons e depois com todos juntos. Eram poucos segundos, com Milu, Haddock e Tintim num barco e desde as patinhas do cachorro, os passos do Tintim, a água batendo, TUDO é separado — especialmente num filme como esse, totalmente animado.
A terceira sala, chamada de “Foley Room”, é o lugar onde todos esses sons são criados. É uma sala com aparência de suja, cheia de objetos no chão, areia, terra, papel — enfim, tudo que, de alguma maneira, pode virar som. E alguns exemplos foram mostrados e, interessante, os sons são gravados antes mesmo de o filme começar a ficar pronto. Já na pré-produção, com storyboards, eles usam o que chamaram de “bíblia” pra fazer cada pontinho e já facilitar na hora de colocar no filme que a gente vê e nem se liga que, de fato, numa produção como essa, criada do mais absoluto nada, TUDO tem de ser criado do nada, também. :)
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