Como se não bastasse a presença de Peter Jackson por ali, a enorme TV ao seu lado, enfim, foi ligada e, direto de uma sala de cinema em Los Angeles, lá estava Steven Spielberg — o diretor do filme que, nem por sequer um dia, uma hora, esteve na Nova Zelândia. Ele, aliás, nem sequer conhece o país. Todas as reuniões — inclusive as de aprovação de imagens, etcetera, foram feitas pela internet. Peter Jackson, aliás, contou que durante as filmagens, tinha de acordar todos os dias umas 04h da manhã, pra poder acompanhar tudo o que acontecia no dia anterior, em Los Angeles — por mais perto que seja, os EUA é um dos últimos países na linha do fuso-horário, enquanto a Nova Zelândia é um dos primeiros. Ou seja… :D
A maioria das vezes eu trabalhava, remotamente, de pijama. (Peter Jackson)
Desse jeito, de Los Angeles e ali da nossa frente, os dois realizaram uma entrevista coletiva sobre essa coisa toda de gravar o filme com captura de movimentos, um de um lado do mundo, outro de outro, um sendo o Peter Jackson, outro sendo Steven Spielberg…
Foram uns 30mins de conversa, num clima muito raro de se atingir nesses dias em que os realizadores de filmes viajam o mundo pra parecerem lindos e responder, muitas vezes, as mesmas perguntas um milhão e meio de vezes. Ali eles estavam tranquilos, em seus ambientes, mostrando e falando do seu trabalho pra quem, em resumo, está interessado em saber SÓ sobre o seu trabalho. Fãs de cinema conversando com quem faz (e também é fã) cinema. No máximo, falando sobre uma sequência… Mas até aí, né?
A transcrição do Q&A você confere na última página, porque a visita ao set nem sequer começou. Ou melhor, começou assim que Spielberg se despediu lá em Los Angeles e Peter Jackson saiu correndo pro seu carro, enquanto todos os jornalistas, ainda de queixo caído com o que tinha acontecido ali, iam pras vans que nos levariam para o estúdio.
Não sei se ele foi montado especialmente para aquela visita, se foi usado para algumas filmagens extras ou se já tá pronto pra quando o próximo filme, que será dirigido por Peter Jackson, for rodado, mas aquele lugar recheado de… nada, estava pronto nos esperando. E se o queixo já estava caído, agora estava ralando no chão.
Sem tela verde, havia apenas algumas “grades” no meio do estúdio, dando a ideia do que seria o quarto de Haddock no navio e o do Tintim, na sua casa, com um esqueleto de Milou. Em cada ponta e no teto, alguns pontos brancos, daqueles usados nas roupas de motion capture, e câmera — tudo servindo pra criar o ambiente virtual e servir de coordenadas sobre onde está o que. Ao fundo, uma espécie de “sala de comando”, definida por Joe Letteri como “Controle da Missão”, realmente muito parecida com aquelas que a gente vê em filmes sobre viagens espaciais (Houston, bla bla bla), onde o pessoal, atrás dos computadores, geram os ambientes e personagens que são exibidos em algumas telas de LCD espalhadas pelo estúdio. Havia também quatro outras que filmam de verdade, em vídeo (pra referência) e… Só.
Quando Peter Jackson — e sua camisa meio aberta, e sua caneca do Mickey — entrou no estúdio, o queixo que já tava ralando no chão foi mais pra baixo, fazendo com que a gente perdesse alguns dentes no meio dessa história, felizes e empolgadíssimos com aquilo tudo — teríamos uma aula de como funcionava aquela coisa toda. E ele, tão empolgado quanto a gente, ouviu as explicações de Joe Letteri, supervisor de efeitos visuais, sobre como aquilo tudo funcionava e, então, pegou uma câmera com o que pareciam ser “antenas” pra mostrar como se fazia aquele filme. E como funciona a “magia do cinema”.
O segundo filme vai ser feito nesse estúdio. Não decidimos a história ainda, mas estamos bem perto.
Dois atores, devidamente vestidos da cabeça aos pés com aquelas roupas ridículas e cheias de pontos brancos, entraram, primeiro, no que seria o “quarto de Haddock”. Com uma bengala também cheia de pontos brancos e o esqueleto de Milu, os dois fizeram algumas graças enquanto Peter Jackson filmava com uma câmera que, na verdade, não filma nada — “É um controle de Playstation”. Enquanto isso, Letteri passou pra nós um dos capacetes usados na captura de movimentos. IMAGINA O MEDO de deixar aquilo cair? A importância de ter aquilo em mãos? Cada um daqueles é moldado pra cabeça do ator etc. etc. etc. … Passei rapidinho pro cara do meu lado. :D
Aquelas antenas serviam, assim como todo o resto ali no estúdio, pra localizar a câmera e seus ângulos dentro do ambiente gerado, ao vivo, por computador. Era possível se aproximar dos atores, ou ficar longe a ponto de sair do mesmo ambiente, sem sair do lugar — em cenas de movimento, por exemplo, o ator andava / corria, mas era através do “zoom” e da localização da câmera que a cena era gravada. E isso era feito algumas vezes, já que, ao contrário de Avatar (que usou uma tecnologia parecida), as cenas eram filmadas com cada ator, algumas vezes — e não uma só, num plano “geral”, e depois editada no computador. Spielberg preferiu fazer desse jeito, já “pré-editando” a cena, direto da filmagem. E assim Peter Jackson ia, como uma criança — exatamente do jeito que a gente estava se sentindo — mostrando como funcionava aquele brinquedo novo e eu te digo: é impressionante.
Seria possível fazer o filme sem a câmera, apenas com o joystick instalado nela, mas eu não gosto muito de computador e a câmera é o link entre a minha imaginação e aquilo que eu estou fazendo, de fato (Peter Jackson)
Ver o resultado daquilo já impressiona. Ver o making of daquilo, em extras de Blu-ray, impressiona. Ver aquilo na sua frente, impressiona MUITO. Peter Jackson só precisava pedir para a “sala de controle” mudar o ambiente que, do nada, do corredor do navio, eles estavam na rua. E entravam na casa de Tintim. Assim, rápido, fácil. E foi com um olhar meio assustador, daquele que o próprio PJ conseguiu de Elijah Wood em alguns momentos de O Senhor dos Aneis, quando ele comentou a tentação de nunca mais fazer um filme live-action. “Você não deve se permitir fazer isso. Seria mais fácil, mais barato, mas não.”
Fica claro, ouvindo e vendo Peter Jackson responder isso, e ler algumas entrevistas de Martin Scorcese sobre “A Invenção de Hugo Cabret”, James Cameron sobre “Avatar”, ou mesmo Steven Spielberg falando sobre “fluidez” dessa nova maneira de fazer filme que, pra um cineasta, alguém que gosta de contar histórias, essa tecnologia é extremamente tentadora. É o mais próximo que alguém pode e vai conseguir da magia. Ou, o que talvez mais impressione esses gênios, é o mais próximo que se vai conseguir chegar perto de suas próprias imaginações.
Você já tá seguindo o Judão no Twitter, Facebook, Google+ e Tumblr?! Pois deveria. ;D


