Dizem que o cinema é mágico. As histórias que são contadas, as emoções que são sentidas, a experiência única. Eu concordo, mas a magia do cinema não está só na sala de exibição. Ela começa antes, bem antes, nos bastidores, que muitas vezes criam seres e ambientes pra ajudar a contar uma história. E tudo aquilo parece real. De alguma maneira, seja uma animação, seja um monstro, seja o que for, a gente entra na história como se fosse algo comum, algo do nosso dia-a-dia.

Se o resultado final, na sala de cinema, na bilheteria, é bom ou ruim, isso é algo completamente diferente e, pelo menos, pro que eu considero “magia do cinema”, nem sequer importa. Ela vai muito além disso.

Em Julho do ano passado, exatamente no meio da Comic-Con em San Diego, recebi do Brasil a notícia de uma jornada inesperada: eu faria um set visit de As Aventuras de Tintim. Um dia depois do fim da Comic-Con, pegaria um avião em Los Angeles e iria até Wellington, na Terra Média Nova Zelândia, conferir o set de um filme que eu, como fã do personagem, como fã de Steven Spielberg, como fã de Peter Jackson, esperava demais. MUITO, mesmo, e cujo trailer havia me deixado embasbacado. Como aquilo poderia ser “simples” animação?

E o principal: como assim eu vou visitar o set de um filme completamente feito com captura de movimentos, com tudo criado em computador? O que é que eu vou escrever depois sobre isso?

Ah, a magia do cinema…

Depois de 12h de viagem, com direito a “Paul” no vídeo (é legal, mas falaram demais) e dormir de bruços, graças a um overbooking misterioso que me deu direito a viajar de classe executiva — e champagne, que eu obviamente troquei por uma Sprite ou, como chamam na Oceania, uma “Lemonade” (que é diferente da Sprite, mas bem bom) — pousei em Auckland, uma das principais cidades da Nova Zelândia, pra uma escala rumo a Wellington, a capital.

Foi nessa viagem de uns 30mins que eu me liguei onde eu estava – vendo montanhas, lagos, mar, sol e tudo junto pela janela. Mas tomei um susto quando o motorista da Sony Pictures que foi me buscar no aeroporto entrou no banco do passageiro e começou a dirigir. Mão inglesa é um tanto desesperadora pra quem não tá acostumado AND no banco de trás… :D

No hotel, completamente perdido no tempo (saí na segunda-feira de Los Angeles, cheguei na quarta, e foram só 12h…), pude notar duas coisas: que o governo de lá é tão filho da puta quanto o nosso em relação a “tomadas”, e que a televisão deles é assustadoramente ruim. A partir do momento em que o melhor que tinha pra ver era o E!… Mas enfim. :D

Aproveitei o tempo que tinha pra descansar de um vôo que fiz deitado e também porque teria de acordar por volta de 5 da manhã no dia seguinte, já que às 06h45 eu e mais alguns jornalistas online deveríamos estar na Park Road Post Production, o estúdio de pós-produção de Peter Jackson, onde, por exemplo, “Senhor dos Aneis”, “King Kong”, “Distrito Nove” e, obviamente, “As Aventuras de Tintim” foram finalizados, pra uma “conference call” com ele e Steven Spielberg.

Peter Jackson se perfaz de Capitão Haddock em uma cena teste feita a pedido de Steven Spielberg, na época de Guerra dos Mundos

Café da manhã tomado, fomos todos levados a uma sala de cinema, toda em estilo clássico, mas com uma tela 3D, onde rolaria a tal da conferência e onde também veríamos algumas cenas do filme. E foi aí que tudo começou a mudar. Foi aí que aquela coisa de “magia” começou a se fazer presente: lá na frente estava Peter Jackson, de camisa xadrez meio aberta, tomando café (ou chá) numa caneca do Mickey Mouse. “Good morning”, dizia ele pra galera, ao lado de uma TV, enquanto todos se arrumavam nos seus acentos. :D

Com todo mundo devidamente sentado — e todo mundo devidamente empolgado com o que, pelo menos pra mim, foi uma surpresa — PJ começou a introdução, primeiro do que era a Park Road, com um vídeo mostrando muitas das coisas que já tínhamos visto enquanto estávamos tomando o café, e depois sobre As Aventuras de Tintim, especificamente, com o mesmo vídeo que ele mostrou na Comic-Con: o teste que ele mesmo fez, vestido de Capitão Haddock, quando Spielberg pediu para a Weta Digital um “teste” de como seria um Milu digital no meio de um mundo live-action — e foi ali que nasceu, em 2006, a colaboração entre os dois diretores, produtores e, enfim, gênios.

Eu não estive no painel do filme, na Comic-Con, e estava vendo o vídeo pela primeira vez. Nele, PJ Haddock faz piadinhas sobre como seria perfeito pra interpretar o papel — seu “sonho”, desde que “começou a cultivar barba aos 7 anos de idade” — enquanto bebe e tenta fingir que o cachorro não tá lá, preenchendo seu saco. Deu pra entender completamente porque eles resolveram partir pra captura de movimentos, mas ficou tão legal a interação do PJ Haddock com o Milu completamente digital que… Bom, esse vídeo deve ser liberado num Blu-ray e vocês verão. Já tem um pouco dele nesse featurette, pra quem ficou curioso… :)

Depois desse vídeo, Peter Jackson apresentou outras duas cenas: na primeira, Milou corre por Bruxelas, pulando em caminhões, passando sob carros, esbarrando em vacas, atrás do seu dono, que foi sequestrado na porta de casa, ao receber uma encomenda. Era a primeira cena com a trilha sonora de John Williams, e não estava finalizada. Em alguns momentos, inclusive, o que vimos era story board. Mas o ritmo e a música fizeram muito bem o seu trabalho em mostrar o que quer que eles queriam mostrar. Eu não sei exatamente o que é, mas sei que eu vi. Com um sorriso idiota no rosto, eu vi.

O terceiro clipe mostrava Tintim e Haddock num hidroavião, no meio de uma tempestade gigantesca, no exato momento em que o combustível começa a diminuir. Muito mais do que tensão, muito mais do que “OMG O QUE VAI ACONTECER”, a gente se empolga com aquilo tudo, torce pros personagens — especialmente Haddock, que vai até o tanque usar o seu tradicional bafo de cachaça pra dar uma ajuda. :D

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