Quem costuma acompanhar as resenhas de Ultimate Comics Spider-Man aqui no JUDÃO já sabe: o Universo Ultimate da Marvel está um caos. Desde as primeiras edições da nova fase de Ultimate Comics X-Men, o sentimento anti-mutante tem crescido nos Estados Unidos. Isso, somada a destruição de Washington e as ações de um vilão sombrio, levaram a União a, literalmente, quebrar na saga Divided We Fall. Apenas uma figura centralizadora e querida por todos pode levar agora os EUA de volta a ser um único país. E esta figura não é apenas o Capitão América, mas também o PRESIDENTE STEVE ROGERS. Isso é, em parte, o que acontece em Ultimate Comics Ultimates #15 (Marvel Comics, 27 páginas, US$ 3,99), que está sendo vendido nos States desde ontem e que pode ser adquirido pelo brasileiros via Marvel.com. Tudo, de certa forma, construído como uma alegoria do atual momento dos Estados Unidos – e que pode ser transportado aqui para o Brasil.

Por ser um universo super-heróico, a nova secessão dos Estados Unidos não foi muito tranquila. Começou com a loucura de Reed Richards, que, após tentar conquistar a Europa, se voltou contra o próprio país e matou o presidente – bem como os outros 14 que poderiam sucedê-lo, pela ordem que manda Constituição. Assim, o Texas vê como fraca a figura do presidente que acaba sendo nomeado e, levado pelo crescimento da questão mutante, declara independência, investindo em uma nova frota de Sentinelas. Os robôs então invadem os estados de Novo México, Arizona, Oklahoma e Utah, combatendo os mutantes e transformando o setor em uma área reivindicada pela nova República – e abandonada pelo governo dos EUA. Para piorar, levados pelo tal vilão obscuro, os separatistas criam a sua própria bomba nuclear.

Inúmeros refugiados então se dirigiram para a Califórnia, o que leva os estados da Costa Oeste a não concordar mais com as atitudes do governo central. Assim é declarada a República da Costa Oeste, que passa a ver em todos os fugitivos do conflito provocado pelo Texas como imigrantes internacionais. Uma frota de vespas robóticas é colocada na fronteira, matando qualquer um que tentar entrar no novo país.

Em meio a esse caos, o Capitão América ressurge. Ele estava sumido desde a morte de Peter Parker, pela qual se culpa. Ainda durante os conflitos contra o insano Reed Richards, Nick Fury tentou chamá-lo mais uma vez para a equipe, mas ele não aceitou por “ter muito sangue nas mãos”. Com a ausência dele, tudo isso aconteceu e os Estados Unidos não são, com perdão do trocadilho, mais unidos.

Assim, Steve Rogers e Os Supremos vão até Dallas, que ameaça atacar os Estados Unidos com arma nuclear. Finalmente eles conseguem deter os planos do governo rebelde, reanexando o Texas à União. Ainda assim, há o problema dos estados do Sudoeste, dominados pelos descontrolados Sentinelas. Pra piorar, uma eleição foi convocada por conta das mortes provocadas por Reed Richards e pelo fato de muitos não verem o governo do Presidente Howard como legítimo.

Por tudo isso, o presidente interino ordena: “Capitão América, fique em Dallas coordenando a reentrada do Texas na União. Estes estados quiseram ficar por si mesmos. Não quero que você saia de solo estadunidense”.

Nesse momento, a saga Divided We Fall e o roteirista Sam Humphries conseguem levar a figura do Capitão América ao extremo. Imagine um herói que lutou pela “América” durante a Segunda Guerra Mundial, levando a bandeira das faixas e das estrelas no próprio corpo, lutando por um país unido e livre. Por, de certa forma, uma negligência dele, os Estados Unidos estão ruindo. Refugiados estão sendo mortos na fronteira com a Califórnia e ele “deve ficar em solo dos EUA”, seja lá o que isso representar agora, como ele próprio diz.

Esse tipo de enredo, que leva o personagem ao limite de sua representatividade, da sua lenda, é sempre empolgante.

A questão é: o que fazer? Steve Rogers deve ser um militar, obedecendo às ordens do presidente, que apenas está preocupado com a política? Ou deve ser um super-herói, salvando aquelas pessoas que estão sob risco de morte?

Nesse momento é que entra Nick Fury, hoje um procurado pelo governo dos EUA. Steve do lado do Texas, Fury do lado do Novo México, que agora é Terra de Ninguém. O ex-diretor da S.H.I.E.L.D. avisa: “eu estou cuidando dos problemas por aqui” – ao lado da Kitty Pryde e dos X-Men – “seja apenas um bom soldado”. Mais uma vez, Steve Rogers não houve os conselhos do antigo chefe…

O Capitão América vai até Blythe, na Califórnia, e começa a defender os imigrantes, que estão sendo massacrados pelas vespas. Ao ver o que estava acontecendo, o presidente Howard fica indignado – e recebe uma mensagem de Steve Rogers enviada para Carol Danvers: ele renunciou ao posto de Capitão América. Ato efetivo há cinco minutos. O escudo será enviado de volta AMANHÃ.

O que acontece a seguir é que o ex-Capitão, ao lado d’Os Supremos, chuta bundas ao vivo para a TV, no meio das eleições – que, pela pressa, foi feita de uma forma na qual qualquer um é candidato, basta apenas ser votado. Nas TVs do país, o povo dizia: “votei no Capitão América porque ele é o ÚNICO que está fazendo alguma coisa”.

Assim, sem campanha na prática, Steve Rogers vence a eleição para PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA!

Como o editor-chefe Axel Alonso já havia comentado, Divided We Fall (e United We Stand, saga que começa a partir da eleição do Capitão) é uma forma de retratar a real política interna dos Estados Unidos, dominada por interesses que também estão dividindo o país na atual campanha presidencial. Há quem diga que a editora está, indiretamente, criticando o governo Barack Obama e defendendo a oposição Republicana. Vendo de fora a política estadunidense, diria que não é. Até porque os opositores na HQ são vistos como separatistas. Diria que trata-se de uma crítica à política como um TODO.

O que Divided We Fall coloca é que o governo central é omisso, opaco, sem atitude. No entanto, quem se opõe a ele não quer o bem da nação, mas sim benefícios próprios para si ou, no máximo, para a própria região. Eles não enxergam mais a “América” como um todo.

No meio disso tudo surge a figura de Steve Rogers, que já foi omisso no passado, mas agora não quer cometer os mesmos erros. A mensagem da eleição do Capitão América como presidente é bem clara na fala dos populares na TV: “ele é o ÚNICO que fez alguma coisa”. Alguma coisa pelo bem de todos, e não apenas por dois ou três.

De certa forma, a eleição de Rogers é um retrato do que os estadunidenses queriam com a própria eleição de Barack Obama. Em uma das notícias que li sobre a saga do Ultiverso, que tinha como manchete em inglês “Um super-herói é eleito presidente dos EUA”, havia um comentário que definia isso bem: “pensei que nós JÁ tinhamos votado no super-herói”.

O que as pessoas querem, no final das contas, não são mais partidos e suas lógicas corrompidas, seja no Brasil ou nos EUA. Elas querem homens de ação. Veja bem, não estou condenando aqui os partidos políticos, mas sim o que foi feito deles.

Essa lógica dá para ser transportada para o Brasil. Aqui o princípio dos partidos foi também perdido. O que vemos são candidatos e políticos que defendem interesses de grupos, de regiões, de pessoas… Não são os interesses de TODOS. A diferença é que se nos EUA eles acham que o interesse pelo bem do país se perdeu e por aqui temos certeza que isso nunca existiu.

Isso cria uma situação igual a que vemos hoje em São Paulo, com um candidato de um partido nanico, novo, dominando as pesquisas depois que a população se sentiu abandonada pelos dois principais partidos que governam a cidade, o estado e o País há anos. Podem existir inúmeras restrições ao tal candidato, mas ao menos ele colocou a cara na TV algumas vezes, lutou em favor dos fracos e oprimidos por direitos que estavam na Constituição… São as pessoas procurando, de alguma forma, um super-herói.

Só que, na vida real, não existem super-heróis. E cada país tem a figura famosa que merece…

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