Um gráfico publicado em janeiro deste ano no site Short of the Week foi exaustivamente postado nesta quinta-feira no Facebook. Em tom de denúncia, o estudo mostra que das 10 maiores bilheterias de 2011, oito são refilmagens e duas são adaptações de outras mídias.

Em comparação, o gráfico mostra o Top 10 de 1981, em que apenas dois filmes são continuações, um é adaptado e os outros sete são obras originais. Tudo isso mostraria que Hollywood passa por uma crise de criatividade, que os executivos não querem mais arriscar a perder dinheiro e que estamos todos fodidos.

Veja aqui.

Como esse é um argumento que muita gente repete – e que faz parte daquele discurso babaca de “os filmes de antigamente eram muito melhores” – acho que é pertinente colocar alguns pingos nos “is”.

Claro que ninguém é imbecil de discordar que o gosto do público médio por cinema mudou muito nesses 30 anos. No início dos anos 80, a audiência comum começou a passar por uma mutação. Saía de cena o cinema adulto, urbano e realista realizado pela geração de Martin Scorsese nos anos 70 para começar o domínio do cinema pipoca, focado na diversão, criado por Spielberg e George Lucas, amigos, observem, de Scorsese.

Preste atenção. Não estou dizendo que não existe mais cinema adulto. Só estou dizendo que a indústria passou a ter como principal foco de investimento – e de rentabilidade, é claro – o popular “cinemão”. Goste você ou não.

Acontece que o que foi criado naquela época evoluiu para um novo tipo de produto. Harry Potter, Transformers ou Crepúsculo – os três primeiros colocados na citada lista de 2011 – não são só filmes. São eventos. São produtos muito mais complexos e ambiciosos do que um mero longa-metragem.

Eles têm a capacidade de tirar de casa um público que vai ao cinema poucas vezes ao ano. Ou que não vai ao cinema normalmente. Mais que isso, eles atraem todo tipo de gente. Cercados de um sistema midiático absurdamente bem armado em torno deles, fica praticamente impossível que você não seja exposto a esses bruxos, robôs e boiolinh … digo, vampiros!

Não faz o menor sentido a tal lista, bradada aos quatro ventos por críticos de cueca apertada, comparar eventos com filmes. E eu posso provar.

Vamos pegar duas listas de maiores audiências anuais para comparar? Vamos. 1981 e 2009. Agora, vamos retirar dessas listas todas as continuações e adaptações? Vamos. E vamos também aplicar a correção da inflação sobre elas? Bora! Lembrando que estamos falando de bilheterias nos EUA, que é o que importa para os estúdios.

Em 1981, os 10 maiores filmes ORIGINAIS renderam, em sua totalidade, US$ 2.233.682. Bastante, né? Mas também, aquele ano teve no topo de sua lista Os Caçadores da Arca Perdida, que sozinho, em valores corrigidos, fez US$ 709.770.

Então vamos comparar 1981 com 2009, que teve teve outro campeão de bilheterias 100% original: Avatar. E pegar Avatar não é jogar sujo, já que, em valores corrigidos, os aliens azuis faturaram só US$ 70 milhões a mais que a estreia de Indiana Jones. Sabe quanto renderam os 10 maiores ORIGINAIS de 2009? US$ 2.481.402!

Repito. Tirei da lista Transformers: A Vingança dos Derrotados, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, A Saga Crepúsculo: Lua Nova e qualquer outro filme que não fosse 100% ORIGINAL. E os substituí pelos seguintes na lista.

“O que? Como assim? Mas Hollywood não é mais original! Esses executivos sem imaginação estão acabando com o cinema!” Não, cara pálida. Não estão. Pelo contrário. O cinema gringo rende mais dinheiro a cada ano que passa.

Mesmo 2010, que não teve nenhum mega-hit original, não fica tão atrás assim de 1981, com US$ 1.586.935. Já 2005, por exemplo, soma US$ 2.013.990. Acontece que essa indústria é muito mais aleatória do que querem que você acredite, amigão.

(Recomendo muito, num parêntese pedante, o livro O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, que mostra que nem sempre o sucesso ou fracasso pode ser explicado com tanta simplicidade, como desejam alguns.)

Pelo menos no meu modo de enxergar, continuações e adaptações não são o câncer do cinema, como vem sendo dito por aí. Se os filmes forem bons, está ótimo para mim. Ou você vai dizer que Senhor dos Anéis, Batman – O Cavaleiro das Trevas ou Os Vingadores são filmes menores por serem adaptados?

Não, né?

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