Minha introdução no mundo dos quadrinhos de super-heróis aconteceu com o Superman. Era meados dos anos 90 e ainda Editora Abril estava finalmente publicando no Brasil a saga A Morte do Superman. Sim, comecei pelo Superman justamente no momento mais conturbado do personagem.

Anos depois, alguns fãs (principalmente no finado site Superman.ws) definiriam aqueles tempos como “o fim do Superman”. Basicamente, eles defendiam que o Homem de Aço recriado nos anos 80 por John Byrne era menos poderoso e menos justo, tendo recorrido a artifícios que o personagem clássico, consolidado na Era de Prata, nunca faria. Aliás, em A Morte do Superman, o próprio Azulão dá a vida para matar o vilão Apocalypse, o oponente naquele momento. Algo imaginável antes do reboot da década anterior.

Ainda assim, aquele Superman “mais humano” (ou “marvelizado”, como os detratores definiam) empolgava. Ainda era possível reconhecer nele um ideal inspirador, alguém que surgia na Terra justamente para mostrar para nós, os terráqueos, que um homem poderia fazer a diferença. E que todos nós deveríamos ser melhores.

São características que, por mais que eu me esforce, não encontrei em O Homem de Aço, o novo filme do Superman que estreia dia 12 de julho no Brasil.

De perder o fôlego

Calma, calma, CALMA! Não disse que a superprodução é totalmente ruim. Longe disse. A primeira parte do filme é, veja bem, empolgante. Somos apresentados a um Krypton que, ao mesmo tempo, lembra características das HQs de John Byrne e de origens mais recentes, incluindo o reboot de Os Novos 52, mas agrega elementos novos, como uma tecnologia mais orgânica e, veja só, “animais” ao visual desolado de Krypton. Russel Crowe, que dá vida ao pai do Supinho, Jor-El, está incrível como sempre em ótimas cenas de ação.

Dá pra dizer que o enredo fechado e bem amarrado do começo do longa-metragem é uma ótima história por si só. Pena que, claro, tudo acontece meio que rápido. Afinal, o objetivo principal do filme não está ali.

Russel Crowe de Jor-El

O Homem de Aço continua bem a partir daí. Conhecemos um Clark Kent já adulto, em busca de respostas a perguntas como “de onde em vim?” e “para onde vou?”, enquanto isso ele vai se lembrando de elementos da juventude, que revelam um crescimento traumático para o herói. O ritmo dos flashbacks é bem interessante.

Superman sombrio

É aí que começam meus problemas com O Homem de Aço. É de se esperar que Clark Kent tivesse uma juventude difícil — algo comum, veja só, nas origens mais recentes nos quadrinhos. Mas falta um olhar inspirador, algo que demonstre que ele tem um destino grande no futuro. O que há é apenas melancolia.

Em parte, o roteiro de David S. Goyer tenta ancorar a semente do que será visto como o melhor do Superman nas características do pai adotivo do personagem, Jonathan Kent. Kevin Costner chuta bundas como sempre no papel e é mais herói do que o próprio filho que criou. Filho esse que é mais um outsider do que qualquer outra coisa.

Kevin Costner e o jovem Clark Kent

Sem jogar muitos spoilers, posso dizer que, no final das contas, o Superman construído no filme não é alguém que surge para guiar a humanidade. Nada disso. É alguém que encontrou as respostas que queria e recebe uma vestimenta de Krypton apenas para nos proteger de um perigo que, indiretamente, ele mesmo trouxe.

De certa forma, esse foi o mesmo errado cometido por J. Michael Straczynski na graphic novel Superman: Terra Um. Lá — como aqui — o perigo que revela o Homem de Aço ao mundo é causado por ele próprio. Vale dizer que o roteirista do novo flme, o Goyer, foi um dos primeiros a ler o gibi de Straczynski. Só que uma coisa é comentar esse erro em uma graphic novel, outra é cometê-lo em um filme.

Dá pra dizer que, no final das contas, temos um Superman sombrio para tempos sombrios. Não é o herói que precisamos — até porque, na real, precisamos apenas por causa dele mesmo — mas que merecemos. Ele até diz que aquilo que carrega no peito significa “esperança”, mas, como define bem a Lois Lane, aquilo é “apenas um S”.

(Aqui cabem uns parênteses com informações que, para alguns, podem ser consideradas como spoilers. Já que está avisado, aqui vai: a contagem de corpos no filme é realmente alta, como alguns estão criticando. Ao meu ver, isso não pode ser considerado como uma falha do filme. O Superman moderno, esse que nasceu nos anos 80, ou até mesmo o atual, do Grant Morrison, se envolveria em batalhas como a do filme em grandes centros urbanos. Isso aconteceu na própria saga A Morte do Superman. São inimigos muito fortes, que você não consegue levá-los para lugares desabitados, e que não se importam em matar pessoas. Por isso, eventuais mortes no conflito são, infelizmente, esperadas. São sacrifícios em prol de algo maior… Fecha parênteses).

Boas cenas de ação

Apesar dos pesares, O Homem de Aço se desenvolve com boas cenas de ação. Snyder é realmente “visionário”, apresentando ângulos e planos nunca antes explorados com o Superman. Tudo fica melhor com a presença de Michael Shannon como Zod — ou melhor, GENERAL Zod. Trata-se de um vilão meio clichê, mas ele tem uma motivação justa e tudo isso fica mais palpável quando você lembra que ele é, na real, um militar.

O filme também explora muito bem o desenvolvimento bem interessante para os poderes do herói e dos vilões. O Superman não é tão forte assim e controlar o poder que ele tem exige muito mais do que querer isso. Por outro lado, o roteiro recorre à explicações já fora de moda nas HQs para esses mesmos poderes (ou a falta deles) e muitos espectadores podem não gostar dessas justificativas.

Ao menos tempos um filme do Superman no qual ninguém recorreu à kryptonita, não é?

Outro ponto positivo é a trilha sonora. O clássico tema de John Williams foi deixado de lado simplesmente porque Snyder queria algo totalmente novo, sem ligação com o passado. É justo. Pena que a trilha de Hans Zimmer está tão ligado às tendências atuais que falta justamente um novo tema central para o personagem. O que temos é apenas uma identidade sonora, sem nada que ficará cravado na história.

Outras falhas

Seria legal poder parar por aqui, só que isso não é possível. Há, ainda, outros pontos do filme que não digeri muito bem. O principal deles é o uso da Lois Lane, interpretada por Amy Adams. A intrépida repórter do Planeta Diário tem uma grande presença no filme, sendo, de certa forma, o fio condutor da história a partir de certo ponto. Só que isso fica forçado.

Lois Lane ruíva: ISSO não é um problema

Sou especialmente fã da concepção moderna do relacionamento entre Clark Kent e Lois Lane, que começou a ganhar forma nos anos 70 — principalmente com o filme do Richard Donner. O famoso triangulo amoro, no qual Lois é apaixonada pelo Superman e não gosta de Clark Kent (que, por outro lado, quer estar ao lado da amada em sua identidade civil) sempre funcionou muito bem. O filme abre mão dessa possibilidade apenas pela história que está sendo contada e por uma “onipresença irritante” da repórter.

Tal erro irá cobrar seus resultados nas futuras continuações do longa-metragem.

Também fica difícil dizer algo sobre a atuação de Henry Cavill como Superman. O personagem fala pouco, se expressa pouco… O ator manda bem nas cenas de ação e tudo mais, mas, no final, você vê que o filme exige muito pouco dele como intérprete. Também fica difícil julgar o trabalho da Amy Adams, já que ela está claramente subutilizada.

Por fim, o 3D do longa acaba sendo uma perda de tempo. Até mesmo nas cenas que poderiam “jogar” algum objeto na cara do espectador são mal aproveitadas. E nem dá pra dizer que o fato do 3D ser obtido por meio de conversão é uma justificativa. O mesmo processo foi feito com Além da Escuridão – Star Trek e o resultado foi muito melhor.

Universo DC

Ok, um acerto do filme é mostrar ao espectador que há muito além do Superman nesse universo que estamos conhecendo. Há desde a presença do professor Emil Hamilton, que pode servir de base para a tecnologia do Universo DC, até os anúncios da LexCorp e o satélite da Wayne Enterprises. Além disso, existem outros easter eggs interessantes, como a torre da LexCorp em uma cena de ação, o fato de Jonathan Kent trabalhar em um local chamado Sullivan (provável referência à personagem Chloe Sullivan, de Smallville) e a rápida aparição da Otto’s Barber Shop, que deve ser uma homenagem ao roteirista Otto Binder, que teve uma grande passagem pelo Superman.

Ainda assim, fica difícil imaginar um pulo de O Homem de Aço direto para o filme da Liga da Justiça já em 2015. O Superman visto no filme ainda é cru e colocá-lo rapidamente para interagir com outros heróis poderia queimar estágios no desenvolvimento. Seria melhor ver um O Homem de Aço 2 antes de Liga da Justiça, mas tudo depende dos plano$ da Warner.

Nacionalismo e product placements também estão no filme, é só procurar

Não sei, mas diria que não temos um Superman para encorajar todo um planeta a se aventurar no mundo dos super-heróis. Pelo contrário. O que O Homem de Aço nos apresenta é algo para temer. Um alien superpoderoso sem ser controlado por ninguém e que coloca um verdadeiro alvo gigante e vermelho na Terra.

Bom, esses não deixam de ser bons motivos para o surgimento de novos super-heróis. Ou para a criação de uma super-equipe. Será que… ?

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