Entre tudo o que eu me lembro de quando era criança e que me contam por agora, a imagem que surge é de um garoto barrigudo, de cabelo liso, estilo “tigelinha” — como minha mãe me falava — e insuportavelmente tímido. Odiava tirar fotos, odiava qualquer contato com quem eu já não conhecesse e tivesse convivência, odiava dar “um beijo na tia”, não cogitava a ideia de ir de cueca na piscina — num caso ter uma, mas não ter sunga ou qualquer coisa assim. Eu era muito, MUITO envergonhado. E, por conta disso, um santo.

Vovô Sem VergonhaAs poucas coisas que eu aprontei beiravam a genialidade, já que ninguém sabia ou demoravam a descobrir. Na única vez em que eu quis causar, provei que não servia pra essas coisas: fui pular de costas na piscina, caí de queixo na borda e ganhei 6 pontos na Escala Darwin.

Sempre pensei que meu filho seguiria esse caminho. Tipo,parece ser algo mais fácil, né? Mais fácil e menos preocupante, claro. Mas, depois de assistir a Vovô Sem Vergonha, minha concepção de universo mudou. Não tanto pelo Vovô Sacudo interpretado por Johnny Knoxville, mas sim pelo pequeno e letal Billy, genialmente vivido por Jackson Nicoll.

O velho Irving, de 86 anos, é o protagonista do filme, ou ele não se chamaria Vovô Sem Vergonha; mas num caso em que o coadjuvante não só supera o personagem principal como rouba o filme pra si, assim como Heath Ledger e o seu Coringa fizeram com o Batman: O Cavaleiro das Trevas, Billy domina tudo. Absolutamente em todas as cenas que aparece, ele é o destaque. Seja quietinho ao lado do vô, com uma cara de capeta, seja falando sobre a mãe ser presa, ser abandonado, largado sozinho numa loja com duas vendedoras a quem chama de strippers, pedindo pra um cara no meio da rua ser seu pai e, entre outras tantas coisas, fazer um REMAKE de Pequena Miss Sunshine. Literalmente. E foi vendo ISSO que não só eu decidi que gostaria de adotá-lo como o filme todo me ganhou.

“Cubra suas bolas, use uma saqueira”, me aconselhou Johnny Knoxville, numa entrevista feita por Skype, enquanto ele divulgava o filme em Amsterdam, na Holanda — e eu aproveitava um dia de sol no Rio de Janeiro. “Mas não vai ajudar, porque ele é muito esperto, mais do que todos nós. E ele tem uma irmã três anos mais velha que é igualzinha. Ótimo espírito, confiança, não aceita merda nenhuma… Eu tô até tentando fazer os pais deles terem mais filhos”.

Vovô Sem Vergonha

Eu até agora não sei como convenceram o moleque a não só participar de um concurso de Miss como a bancar ele mesmo a stripper. Eu provavelmente teria negado o papel no filme, com essa história. Mas ele faz isso com uma cara tão normal, tão ADORANDO o que tá fazendo, que putaquepariu, como eu queria ter tido a chance de fazer algo assim — e ainda ter filmado. :D

“Teria sido quase impossível encontrar o garoto perfeito pra esse filme”, contou Knoxville, entre uma pausa pra um arroto por conta da cerveja que bebeu durante a entrevista. “Eu trabalhei com Jackson num filme chamado Pequeno Problema, Mega Confusão, e quando o conheci, tudo o que ele fez foi me xingar e dar socos no saco. E eu pensei ‘você é horrível! Não posso esperar pra te usar num filme!’ Não disse isso pra ele, mas porra!”.

“O moleque não tem medo nenhum, é confiante, e às vezes quando a gente trabalha com crianças, eles morrem de medo de fazer pegadinha com adultos. Jackson não. Algumas vezes eu precisava diminuir um pouco o ritmo, já que ele chegou a xingar pessoas e eu precisava dizer que, BEM, ele não podia fazer aquilo”.

Apesar do moleque não ter muitas papas na língua, todos adultos precisavam ter, já que, HEY, ele tem apenas 10 anos de idade, 9 durante as filmagens. “Irving é um cachorro com tesão. E nós não podemos falar explicitamente sobre sexo na frente de uma criança, as coisas ficariam bastante ruins pra gente”, conta. “Nós escrevemos todo um dicionário de frases que ele não entenderia — e se ele não entende o que nós tamos falando, tudo bem. Tem coisas que nem EU sabia o que significava, mas pelos meus olhos, você poderia entender”.

No filme, pouco depois da morte da sua mulher e pouco antes de sua filha encarar um tempo na prisão, o personagem acaba aceitando muito a contragosto a missão de cuidar do seu neto por uns dias em troca de $600.

Bad Grandpa

Poderia ser só um road movie ou uma bela história de um avô com seu filho se Johnny Knoxville e a marca Jackass não estivessem por trás. Não chega a ser sequer parecido com um dos outros três filmes, já que nenhum dos outros caras do Jackass participam. “Tínhamos tudo pronto pra eles aparecerem, mas, no fim, era só a história de Billy e Irving”, disse. “Spike Jonze interpreta Gloria, uma velha, e nós tínhamos coisas geniais, mas precisamos cortar. Catherine Kinner. Tínhamos muitas coisas com ela e… você tem noção do quão difícil é cortar Catherine Kinner de um filme? Mas o fizemos, porque fazia sentido pra história”. Knoxville, pra você ver, nem sequer se machucou (muito). Foi só o ombro e um tendão rompido no dedo da mão.

Mas, pra quem sente saudades de tudo aquilo, pelo menos um alento. “Eu não sei se outro Jackass vai ser possível, mas se não fizermos, eu adoraria fazer outras coisas com os caras”. E Jackson, né? “Sim, claro. Eu quero fazer todos os filmes com ele”.

Vovô Sem Vergonha é algo que lembra mais o que o Sacha Baron Cohen fez com Borat, Brüno e Ditador: uma história de ficção com pessoas reais que não faziam ideia do que estavam acontecendo. Se preferir, um monte de pegadinhas, CÂMERA ESCONDIDA, juntas pra contar uma história. A graça acaba ficando muito mais na situação criada, nas reações das pessoas, do que é dito pelos personagens — tirando os momentos em que o Billy interage com o avô, óbvio. E, apesar de tudo, não é um humor CONSTRANGEDOR. Você não pensa, em nenhum momento, algo como “ai gente, que horror” ou “nossa, coitado”. A vantagem de ser um filme “Jackass Apresenta” é que tudo isso fica a cargo de Knoxville.

Bad grandpa 2

É ele quem apanha, é ele quem é humilhado, é ele que se caga todo, é ele que só se fode. E, tendo Jackson Nicoll do seu lado, o filme deixa de ser APENAS engraçado, APENAS com esquetes, APENAS de pegadinhas. “O Billy é uma criança, tem aquela inocência, não tem todas as merdas que o Irving tem aos 86 anos de idade, sendo egoísta, preocupado apenas em trepar o tempo todo. Eles dois tiveram alguma ligação. Irving aprendeu um pouco sobre amor com ele… Mas não me entenda errado: ele ainda quer trepar”, diz, com toda a seriedade do Mundo, Knoxville. “Mas ele é um moleque tão legal, que acaba cativando o velho”.

Não só o velho. De verdade: se você por algum acaso tiver algum problema com Jackass, seja de aflição, nojo ou ódio mesmo, tenta desencanar disso em nome do pequeno Jackson Nicoll. O filme não vai ser nada disso que você tem na cabeça. E ele vai ser infinitamente mais.

O mundo precisa de mais pessoas como o pequeno e letal Jackson. ;D

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