Que os cinéfilos, fãs de quadrinhos e demais maníacos pelo Homem de Ferro não finjam que foram enganados — porque, embora o tom dos trailers de Homem de Ferro 3 sugira que talvez este fosse o filme mais “sombrio” da série até o momento, uma única expressão já indicaria que não é bem assim: Shane Black. O diretor que assumiu a cadeira no lugar de Jon Favreau já tinha trabalhado com Robert Downey Jr. no delicioso filme policial Beijos e Tiros e, vejam só, imprime aqui rigorosamente as mesmas cores: o terceiro filme do Vingador Dourado tem muita ação, mas tem também muito humor e muita leveza. Definitivamente melhor do que Homem de Ferro 2, esta película tem até, vejam só, um quê de 007, aquele da era de ouro.

Robert Downey Jr. parece beber do mesmo espírito de Sean Connery e incorpora um herói que tenta não perder a pose jamais, mesmo quando num buraco dos mais profundos, lutando para resolver a sua dose de pepinos com um pingo de classe, com um sorriso e uma frase de efeito. E Homem de Ferro 3 funciona, para o bem ou para o mal, exatamente como o fechamento de uma trilogia, criando uma história única bem amarrada com os filmes anteriores. Se, em um ato de completa insanidade, a Disney/Marvel resolvesse não lançar mais nenhum filme do Ferroso, a saga estaria adequadamente completa.

É bom que se ressalte, no entanto, que Homem de Ferro 3 pode ter sim se inspirado na saga das HQs Extremis, o super vírus tecnológico que modifica o DNA humano, coisa e tal. Mas, em termos de ambientação, o filme me lembra muito mais um trecho em específico do título Homem de Ferro – O Legado, cujas histórias já foram publicadas por aqui dentro da revista Homem de Ferro & Thor. Em um arco de histórias ambientado no passado de Tony Stark, ele vive como uma espécie de mendigo nas ruas de Los Angeles, lutando contra a bebida (pós-O Demônio da Garrafa) e tentando reconstruir sua existência depois de ser roubado por Stane. E ali, sozinho, perdido e sem nada, ele encontra apoio num pequena família disfuncional, e começa a procurar matéria-prima nos ferros-velhos, improvisando com o que tem em mãos para alcançar seus objetivos. Basicamente, uma forma de mostrar que, na equação “Homem de Ferro”, o homem é mais importante do que o ferro. E que, por baixo da armadura cheia de modernos armamentos, existe um gênio científico cuja obstinação é, de fato, o combustível para o herói — e não a máquina. Homem de Ferro 3 caminha um pouco por este lado.

A história conversa de maneira inteligente com o que aconteceu na cabeça de Tony Stark depois da épica batalha final de Os Vingadores. Em meio a deuses nórdicos, supersoldados da Segunda Guerra Mundial e monstros esmeralda modificados pela radiação, Stark se considera apenas um cara comum. Um cara comum cheio da grana e com um dos maiores QIs de todo o planeta, mas, ainda assim, um cara comum, sem superpoderes, armado apenas com seus brinquedinhos robóticos.

Mas depois de quase se sacrificar ao entrar, de míssil nuclear em punho, em um portal interdimensional, o Homem de Ferro passa a questionar o seu próprio ego inflado. Meio neurótico, passa a manifestar sintomas de síndrome do pânico e crise de ansiedade. E enquanto se afunda em seu laboratório particular criando novas e novas versões aprimoradas de suas armaduras contra um inimigo que não sabe bem qual é, ele mal percebe que um maníaco de nome Mandarim vem tomando as transmissões de rádio e TV do país para alardear uma série de duros golpes contra a hegemonia ianque, todos com vítimas fatais e todos sem deixar vestígios.

Ao mesmo tempo, ressurge do passado de Stark um sujeito de nome Aldrich Killian: um geneticista genial que, anos atrás, em uma conferência científica na Suíça, tentou trazer o nosso Ferroso para o seu lado, mas acabou descobrindo que o principal interesse dele eram mesmo as baladas e a mulherada. Naquela noite em que Killian foi deixado de lado, a grande preocupação de Tony Stark era com a bela cientista Maya Hansen (Rebecca Hall), uma botânica que, antes de ir para cama com Tony, lhe conta sobre a sua iniciativa Extremis — manipulação genética nas plantas, ainda experimental, que lhes permitiria uma capacidade incrível de regeneração.

Eis que Killian reaparece nas vidas de Tony Stark e de sua amada Pepper Potts, todo galanteador e oferecendo o Extremis como uma possibilidade de manipulação do DNA humano que pode revolucionar a medicina…mas que, sim, também tem um imenso potencial bélico por poder transformar homens e mulheres em seres poderosíssimos. Será que existe alguma relação entre o Extremis e as ameaças do Mandarim? É óbvio que sim – mas esta relação se estabelece não de maneira assim tão óbvia.

Se James Rhodes/Máquina de Combate (agora atendendo pela alcunha de Patriota de Ferro, usando o mesmo visual de Norman Osborn nas HQs dos Vingadores Sombrios) não tem lá muito destaque no filme, os personagens de Gwyneth Paltrow e Jon Favreau ganham mais espaço do que outrora. Segurança e melhor amigo de Stark, o Happy Hogan vivido por Favreau é aquele que primeiro desconfia das artimanhas de Killian quando este ressurge, do nada, em busca do apoio de Pepper para a sua nova tecnologia. E em uma das explosões humanas nada acidentais causadas justamente pelo Extremis, Hogan acaba sendo atingido, causando a fúria de Stark e o seu envolvimento direto na luta contra as ameaças terroristas do Mandarim.

Quando Tony sai do controle e usa a mídia para provocar o homem dos dez anéis, colocando-se como seu antagonista, eis que acontece aquela impressionante cena do bombardeio à mansão Stark. Já Pepper, agora a presidente das Indústrias Stark, sai enfim do papel de “dama em perigo” e se mostra uma mulher muito mais forte e cheia de personalidade, mesmo quando confrontada por Maya e capturada por Killian e seu exército de supersoldados modificados pelo Extremis.

No entanto, sejamos sensatos, não há ninguém que domine mais o filme do que Robert Downey Jr., que praticamente devora qualquer um que esteja em cena com ele. Homem de Ferro 3 talvez seja o ápice de sua interpretação do personagem, esbanjando carisma e bom humor em uma trama que humaniza Tony Stark. Dos três filmes, talvez seja aquele que traz menos tempo em tela do industrial bilionário dentro da armadura. Como uma espécie de MacGyver ainda mais estiloso, Stark resolve tudo com uma traquitana improvisada.

Embora seja um momento absolutamente atípico para um filme da Marvel, Downey brilha justamente em sua passagem menos super-herói, quando a sua armadura o leva, logo depois do ataque à sua casa, para o Tennessee, exatamente a última localização conhecida de uma explosão similar àquela que vitimou seu amigo Hogan. A aterrizagem não é das melhores e Stark se vê carregando a armadura, cujo sistema caiu, sozinho pelo meio da neve (estamos perto do Natal, logo…).

Quando chega a um celeiro repleto de ferramentas rudimentares, ele acaba conhecendo um menino chamado Harley, abandonado pelo pai e com uma mãe um tanto ausente. E é justamente na dinâmica entre Stark e o moleque que o filme cresce. A química entre Downey Jr. e Ty Simpkins (o filho de Patrick Wilson no ótimo Pecados Íntimos) é brilhante, ao mesmo tempo tocante e hilariante, e é justamente um garoto espertinho que conhece Tony Stark por seu papel na batalha de Nova York que o ajuda a combater seus demônios e descobrir que ele não precisa de um laboratório de última geração repleto de autômatos para explorar sua mente científica brilhante.

Outro caso à parte é o de Ben Kingsley, que dá um verdadeiro show em tela — mas que, obviamente, está envolvido em uma decisão polêmica dos produtores do filme e que pode acabar desagradando aos fãs mais xiitas das HQs. Afinal, o Mandarim é apenas um personagem, um ícone terrorista criado por Aldrich Killian e sua IMA (Ideias Mecânicas Avançadas — te lembra algo?) para amedrontar o povo americano. Todas aquelas ameaças sombrias que vemos nos trailers são, na verdade, gravações bem orquestradas nas quais um ator meio decadente e bêbado assume um papel.

E se, por um lado, Kingsley está engraçadíssimo como o sujeito meio sem eira nem beira que entende pouco do que está fazendo, por outro chega a surpreender a decisão da Marvel em posicionar Aldrich Killian (com Guy Pearce absolutamente canastrão, um vilão bem anos 80) de maneira tão política. Afinal, o cientista quer ter um vilão em uma das mãos e, na outra, uma brilhante solução armamentista para o governo dos EUA. Ou seja, fechar o ciclo completo. Não faltam, no meio do caminho, sutis cutucadas à política externa dos EUA e à imagem da Terra do Tio Sam no Oriente Médio.

O que achei desta decisão, de colocar o Mandarim apenas como um personagem? Mais do que apropriada. Retratá-lo apenas como o sujeito de poderes mágicos das HQs não era uma opção, pois em nada combinaria com o tipo de história que a Marvel está contando em seus filmes até o momento. Colocá-lo como um terrorista seria uma saída interessante, de fato, embora seja uma abordagem simplista. Achei mais corajoso que, ao invés de um oriental ou árabe querendo derrubar o “Império do Capitalismo”, eles tenham optado por um ocidental interessado em forjar uma guerra, um inimigo que está no coração da própria administração do presidente Ellis (nome que, obviamente, é uma homenagem ao escritor Warren Ellis, que escreveu o arco Extremis nas HQs).

Depois que Stark derrota Killian (que, como não podia deixar de ser, também têm os poderes que o Extremis dá aos seus comandados) em uma conclusão bombástica, que envolve o sequestro do presidente, as muitas armaduras do inventor sendo controladas remotamente e Pepper Potts, agora dominada pelo Extremis, botando para quebrar (mas, não, ela NÃO veste a armadura de Resgate, ao contrário do que se suspeitava), o roteiro deixa uma espécie de ponta solta, que deve ser explorada talvez em Os Vingadores 2. Pepper é operada para a remoção do Extremis de seu organismo e, na sequência, Tony vai parar na mesa de cirurgia para extrair o eletroímã de seu peito.

Como, em nenhum momento do filme, Stark é de fato infectado pelo Extremis (o controle remoto de sua armadura é puro fruto de sua mente genial, um upgrade da tecnologia criada por ele), fica subentendido que ele vai usar a tecnologia desenvolvida por Killian para consertar a si mesmo. Será que isso vai significar que, em breve, a armadura do Homem de Ferro vai passar a fazer parte de seu corpo, como vem acontecendo nas HQs mais recentes? Afinal, foi justamente em Extremis que o status quo do personagem e sua relação com a tecnologia ganharam nova forma nos gibis. Aguardem cenas dos próximos capítulos.

Por último, mas não menos importante, você já sabe que, no melhor estilo Marvel, temos uma cena depois dos extras — no caso, uma cena que mostra Tony Stark em uma espécie de divã, tentando obter acompanhamento psicológico de um certo doutor. O doutor, no caso, é seu colega d’Os Vingadores, Bruce Banner (Mark Ruffalo), que tenta a todo custo explicar que ele não é exatamente este tipo de “doutor”. A cena, que indica que toda a narração em off de Stark ao longo do filme tinha sido em busca do aconselhamento de Banner, é bobinha, mas mantém o link entre os múltiplos heróis da editora. A vontade que ela deixa no ar, no entanto, é que Ruffalo e Downey Jr. voltem a contracenar juntos, desta vez em Os Vingadores 2, tendo enfim resolvido as pendengas financeiras que poderiam impedir o retorno de RDJ ao papel.

Por favor, que uma questão tão descartável quanto o dinheiro não estrague o atual universo cinematográfico da Casa das Ideias… Alguém manda este recado para a Disney, faz favor?

Você já tá seguindo o Judão no Twitter, Facebook, Google+ e Tumblr?! Pois deveria. ;D